Archive for Agosto, 2008

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Poema do Álbum de Figurinhas da Infância

Agosto 29, 2008

Álbum de Figurinhas

Ai que saudades que eu tenho
Dos meus álbuns de figurinhas de coleção
Que eu cuidava todo trancham, todo pimpão
Quando guri lá em Itararé
À sombra do lar and jazz
Que os anos não trazem mais.

Bolinho de piruá, capilé de groselha preta
O pai floreando o acordeão ou a clarineta
Eu com gibis do Tarzan ou do Flecha Ligeira
E o álbum que devidamente preenchido dava de brinde
De bola oficial de futebol a panela-de-pressão

Com meu belo ki-chute pretinho
Tomava crush de canudinho, e de boné
Jogava bate-bafo na rua descalça e rapelava
A petizada pidoncha da periferia de Itararé.

Um dia chorei de montão
Porque por mais que a vida por bem ou mal ensine
É a frustração na infância que a desilusão define:

-Deixei de ganhar uma bola da capotão
Porque na minha bendita coleção
Faltou uma figurinha carimbada do Belini.

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Silas Correa Leite – E-mail: poesilas@terra.comr.br
www.itarare.com.br/silas.htmPoema da Série “Eu Era Feliz e Não Sabia

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DEIXEI MEU CORAÇÃO EM ITARARÉ

Agosto 29, 2008

Deixei Meu Coração em Itararé

Eu posso ir para qualquer lugar do mundo

Uma paisagem bonita, montanhas, ou oceanos

Mas se não estou na minha aldeia Itararé

Então não me sinto dentro do meu próprio coração

Ah meus amigos viajosos

Deixei meu coração em Itararé

Num cristal de lágrimas de luar da Praça Coronel Jordão

Ali é meu ninhal, meu mundo

Só em Itararé sou uma verdadeira Andorinha

Eu posso ir para qualquer lugar do mundo

Ver estátuas e cofres, novidades maravilhosas

Mas Itararé está na minha corrente sanguínea

Só na minha terra-mãe reconheço auroras e prelúdios

Ah meus amigos boêmios

Deixei meu coração em Itararé

Cada paralelepípedo como cacau quebrado da cidade, sou eu

Itararé é o meu encantário

Meu reino mágico, palco iluminado, constelação

Ah meus amigos do mundo

Quem não está em Itararé está vazio de si mesmo

Minha mãe, meu chão de estrelas, minhas memórias, meu lar

Feliz é o peregrino que tem um céu para um dia poder voltar!

Silas Correa Leite

poesilas@terra.com.br

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POEMA DO GURI VENDENDO LIMÕES

Agosto 28, 2008

Poema do Guri Vendedor de Limões

Lá vem o guri berebento
Vendedor de limões verdes
Com cracas, com amarelão
Ele é triste, humilde, desenxabido.
-Vai comprar limão, Dona Carlota Sinhá?
-Quer limão, Profetio? – pedimplora o piá.
O guri tem olhos lambidos de boi guzerá
Mais triste do que ele em Itararé não há.
Devem bater nele de relho, coitadinho
Deve passar uma fome caipora na sua vidinha
A acidez da fruta que vende baratinho
Nem lucro direito dá
Mas deve vir de sua alma de bala azedinha.
Não sabe o curumim, no seu triste enredo
Porque é apenas um moleque aprendiz
Que a maior vingança é ser feliz
Mas certamente ele descobrirá o segredo.
O olhar do menino pobrezinho é da cor
Dos limões azedos que vende
Mas as lágrimas, coitadas
Jamais darão limonadas.
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Silas Correa Leite, República Etílico-Rural de Itararé
E-mail:
poesilas@terra.com.br
Blogues: www.portas-lapsos.zip.net
www.campodetrigocomcorvos.zip.net

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Forfé do Pião Rueiro

Agosto 28, 2008


Forfé de Pião Rueiro

A madeira na mão um toco de imbuia cheirosa
Pedindo pro Jora da Marcenaria Estrela tornear
O pião pra jogar com a gurizada na rua descalça
Que a fieira tinha tirado de uma cortina de casa

O Seu Jora só perdeu um instantinho-prosa daí
Surgiu o pião rombudo qual coxinha de frango
Marrom lixado e um prego sem cabeça na ponta
Pro bicho correr doido como a bailar fox-trot

O pião na mão e o movimento no colo da idéia
Rua cheia de piás guris moleques curumins até
O sol de Itararé rachando revólver de mamona
Gibis do Flecha Ligeira na mão e tarde ardendo

Então a fila pra assistir a inauguração do pião
O coração tamborilando rabo de olho na mira
Enrolei a fieira na bundinha do pião maroteiro
E fiz panca de Burt Lancaster depois da maleita

Soltei o pião lazarento (que apelidei de Garrincha)
E ele foi de bubuia e fez reviravolteio na Rua Capilé
Foi um deus-nos-cudas dos guris serelepes torcendo
Pro meu pião querido ir de vareio no rio da bosta

Mas o caipora lazarento fez fricote zumbiu e parou
Na minha mão direita como uma roseira de brincar

Eu era criança e Itararé tinha uma barulhança pueril
Cresci virei peão de pegar no batente e fazer poemas

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Silas Correa Leite – E-mail; poesilas@terra.com.br
www.itarare.com.br/silas.htm
(Poeminho da Série “Eu Era Feliz e Não Sabia””

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Poema do Dia do Aniversário (19.08.52)

Agosto 27, 2008

Poema do Dia do Aniversário (19.08.52)

“O homem sofre por viver na solidão,
impotente diante dos obstáculos,
condenado à espera inútil e aos
desejos eternamente insatisfeitos.
Nenhuma magia o liberta de seu
destino trágico(…)” Ivan Marques

Faço anos, como quem morre.
Uma pessoa como eu, não faz anos, dura.
Fui feito de sangue, suor e lágrimas
E assim vou me levando, sem lenço e sem documento.

O dia do aniversário da gente
É o dia mais triste do mundo
Deixamos a seguridade do planeta placenta
E viemos dar no inferno da terra, a escória do espaço.

Longe de Itararé, da casa da mãe
O mundo é cainho, uma mixórdia
Tento sobreviver nem querendo parecer humano
E me fujo na poesia, no escrever diários de abordagens.

O dia do nascimento de uma pessoa triste
É como o dia de sua morte, no devir
Nada antes, nada depois, somos o nada
E escrever sobre a espécie é aprimorar técnicas de vôos.

Agosto é um mês de lunáticos e lobos
E sendo eu um poeta que perdeu a infância
Corro-me criança por aí a escrever matizes
Tentando na poesia ter um mundo imaginário, além-luz

Faço aniversário como quem morre, como quem sobrevive a vegetar
Longe de casa, longe da mãe, de Itararé, de mim; do meu próprio estar
O que eu sou é meio lobo, meio criança, meio terráqueo a se procurar
Apontando para uma ilha no céu e pedindo resgate, socorro, Lar.
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Silas Correa Leite – E-mail: poesilas@terra.com.br
www.itarare.com.br/silas.htm
Poema da Série “Na Casa do Pai Há Muitas Geladas”

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Chuvas, Poema

Agosto 26, 2008

CHUVAS (Poema de Silas Correa Leite)

Algumas vezes existi./Algumas vezes tomei chuva./Mas quando tomei chuva eu me senti um átomo da água e ali/Fui rio, nuvem, relâmpago, açude, cisterna, foz e quase voei./Porque tomar chuva é integrar-se à natureza, ser parte dela/Conjugar o verbo haver no sentido mais pleno de seu assento/Eu a chuva – e até algumas lágrimas de alegria, êxtase e contentamento/Como se a minha alma-árvore se lavasse por dentro…/E fui chuva e guri e mar e senti minha alma flutuar numa nuvem-nau/Porque eu era a maravilhosa Chuva naquele bendito magno momento/Então a chuva me reconhecendo como parte dela (que o meu espírito o é)/Parou de ser peneiradinha naquele tardiscar cor de rosa-pitanga em Itararé/E o lírio-laranja do sol se abriu de novo e eu me vi ali/No fio-terra, o guri/Angelicalmente de alma lavada/Pronto para enfrentar a cara amarrada/Da vida distante que em busca de mim mesmo a peregrinar escolhi.

(Silas Correa Leite)

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Poema Pro Aniversário do Solda

Agosto 22, 2008

Parabéns (Cantata de 22 de Agosto de 2008)

Para Luiz Antonio SOLDA

“Cada um sabe a dor e a
Delicia/De ser o que é…”

(Caetano Veloso)

Parabéns, a gente não dá todo santo dia
Pra não ter festa o tempo todo e a gente comer tanto e engordar
Mas que é bom e se fosse possível a gente diria
Porque a companhia é a própria alegria de ser e de estar.

Parabéns, a gente dá com prazer e harmonia
E até canta, bate palmas, faz palhaçada e ri tanto para mostrar
Que a amizade é de quem ama, respeita, confia
E o prazer se anuncia na bela alegria de tanto abraçar

Parabéns, é como música, benzimento ou poesia
Risca fósforo, apaga vela, faz piada e todo mundo quer levitar

Pra dizer pro aniversariante que a gente o aprecia
E ser amigo é serventia de poder todo dia comemorar

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Silas Correa Leite
E-mail: poesilas@terra.com.br
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