Archive for Novembro, 2008

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A ùnica Oração Que Eu Conheço

Novembro 29, 2008

 

A Única Oração Que Eu Conheço

 

                                                                     “Só vos peço uma coisa: se sobreviverdes a esta

época, não vos esqueçais nem dos bons, nem dos

maus(..) Eles eram pessoas e tinham nomes, ros

tos, desejos e esperanças, e a dor do último não

 era menor do que a dor do primeiro, cujo nome 

de ficar…”

 

(Júlio Fuchik, 1980, in, Brasil Debates,

Testamento Sobre a Forca)

 

Sempre fui ateu. Não posso acreditar na hipótese de que, quem fez, fez para destruir depois. Sempre fui um emérito comunista de carteirinha e filosofia. Um marxista teórico, comunista científico e socialista-democrático, em defesa de um sentido ético-plural-comunitário, para a vida em sociedade, com um humanismo de resultados.

 

Sempre achei que a religião é o ópio do povo. Uma burrice pegajenta no refluxo do inconsciente coletivo. Uma antiga invenção política para pôr freios na falsa moral burguesa, que nunca foi exemplar nas suas alcovas e bastidores do poder real. Acho até que a religião teria sido inventada pelo próprio diabo, se é que ele também existe, sentado no rabo da histórica hipocrisia social. Se todo homem é um animal político, como disse o filósofo Sócrates faz mais de dois mil anos, todo homem é também um animal antes de tudo sexual e por isso mesmo pervertido e cruel. Comida, sexo e poder. Esse é o destino do homem que, como todas as coisas, nasce, cresce, tripudia sobre cadáveres e serventias de sobrevivência amoral e decadente, fica tolo, senil, esclerosado e morre. Não há nada depois da morte. Viemos do nada e ao nada voltaremos. Somos esse vazio existencial entre o antes e o depois de. Sempre pensei assim. Do pó viemos e ao pó voltaremos, parece ser a única coisa certa escrita na Bíblia.

 

Mas resolvi de, assim mesmo, relatar o que se passou comigo em tempos ordinários, difíceis, regime de exceção.

 

Vivíamos o período tenebroso das trevas de uma ditadura militar incompetente, corrupta, violenta e senil. A Canalha de 64, cantada como Redentora,  e seu capitalhordismo americanalhado, bancado por setores conservadores da ala reacionária da Igreja, mais as senhoras de Santana, sórdidos empresários agiotas e amigos do alheio, e um projeto babaquara denominado hipocritamente de Tradição, Família e Sociedade, mas, na verdade, bancado por ratos olivas com coturnos, todos com medo do socialismo moreno-tropical do Comandante Fidel Castro que poderia se alastrar por toda a Latrina América terceiro-mundista, em detrimento de suspeitos interesses de agiotas do capital estrangeiro sediados no Washingtom Cloaca.

 

Eu, como muitos camaradas de um aparelho pego em flagrante, delatados por uns porcos empresários de grosso calibre, estávamos presos no DOPS, os chamados podres porões da hedionda polícia paulistana liderada pelo nefasto Delegado Fleury e seus chacais de antro de escorpiões que depois foi assassinado como queima de arquivo.

 

Eu tinha perdido bolsa na faculdade de Direito de Guarulhos (um bocó de  professorzinho-major me fichara em desconfiança), também perdera emprego numa locadora de imóveis dias antes de ter sido promovido (o diretor era um janota coronel de reserva da aeronáutica), minha família foi vigiada, corríamos risco de passar fome, até que viram um artigo meu com Codinome Comando Alfa, denominado “A Corrupção Financia a Revolução” e assim eu fui levado de camburão como um bandido, seqüestrado por um bando de recos com fuça de hienas, para medo de meus amigos, familiares e inteligentíssimos colegas de esquerda. O país agonizava, era uma eterna noite com um falso verniz de arapongagem e montados milagres econômicos que tinham um alto custo social, como depois se revelara a partir de um montado medo do Jango e outras tramóias de imbecis de terno, gravata, e farda, os reacionários de aluguel fundando novos covis de salteadores.

 

Fichados, éramos interrogados, cobravam nomes, documentos, atentados, datas, aparelhos, panfletagens, e muita gente morreu nessa época, incrivelmente muito mais do que se sabe, se identificou, inclusive por uma ala internacional da ONG Tortura Nunca Mais.

 

Essa ONG aliás, era baseada na Europa, mais agora está vigente no Brasil S/A, nesses tempos de tenebroso neoliberalismo-globalizado, mais uma terceirização neoescravista com privatizações-roubos e reformas que dão flanco ao contrabando informal, e permitem aos narcotraficantes substituírem um estado propositalmente falido pela elite na sua essência básica de prover os excluídos sociais.

 

Diariamente vinha uma trinca de recos levar ou outro colega comuna de cela. Que era torturado de todas as maneiras. Se resistisse, voltaria a passar por outra sessão severa, de pau-de-arara a sodomia, de pancadaria e loucuras indescritíveis. Nem que eu tivesse um milhão de anos, eu esqueceria esses horrores. Muitos morriam no interrogatório. Então montavam fugas, falsos suicídios como o de Vlado Herzog, atentados, máscaras e camuflos para jogar areia na dura verdade, atirar fumaça nos crimes cometidos pela aparelhagem do estado militarista historicamente incompetente,  sempre ao lado de latifundiários, estrangeiros, banqueiros, e uma burguesia decadente, amoral e insensível com as riquezas injustas, os lucros impunes e as propridades-roubos. Muito ouro e pouco pão.

 

Sou uma testemunha da história. De certa forma sobrevivi, na medida do possível, mesmo para assistir, com nojo, ex-marxistas bandearem de mala e cuia pro lado do inimigo, e até darem seu apoio a banqueiros irracionais, aumentando a falsa dívida externa, saqueando as empresas estatais que foram vendidas a preço de banana e moedas podres. E os piores comunistas são os falsos, de ocasião, que se abancam em cargos públicos por interesses mesquinhos, tipos ególatras como melancias, vermelhos por dentro mas verdes por fora. E como testemunha é que me cabe aqui relatar sobre a única oração que eu aprendi na cadeia, em estado desesperador.

 

Detido no DOPS, via chegar e sair os suspeitos de sempre, via entrar e sair um torturado vencido pelo horror, via um bando de vaquinhas de presépio levando cadáveres para desovas em cemitérios clandestinos fomentados por políticos do estilo rouba e diz que faz, eminência parda à sombra dos três podres poderes. Era o regime de exceção. Era o arbítrio. Eu senti muito na pele a dor  crucial dessa época. Um determinação legal da ONU dizia que um povo podia se voltar armado até, contra uma ditadura, mas nós estávamos desarticulados e ali nos restávamos aguardando a morte, o exílio, ou as seqüelas que hoje eu sinto que são para sempre.

 

Pendurado num pau-de-arara, sem água, sem luz e sem pão, eu não podia dizer muito, primeiro porque era pela não-violência, segundo porque nunca tinha atentado contra ninguém, minha única arma era a palavra escrita e falada, eu era bom de dialética e sabia ocupar meu espaço denunciando, reclamando, pedindo por eleições diretas e o fim das insanidades palaciais. Se eu soubesse muita coisa, de qualquer maneira, confesso que jamais contaria, eu não era um alcagüete e sabia suportar pressões. Mas apanhei muito. Várias vezes. Quase morri. Era uma sova atrás da outra.

 

Lembro-me, no entanto que, por aqueles labirintos amorais e desumanos, perambulava sempre, um peregrino cândido e terno que, certamente corrompia financeiramente as altas patentes todas (que eram facilmente corrompíveis) e ali nos vinha dar sua palavra de conforto, seu apoio moral, seu largo ombro amigo, na sua tez de seda.

 

Esse anjo em forma de gente, era o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns.

 

Volta e meia nós o víamos saindo de uma cela, tentando cobrar autoridades do arco da velha, entre paisanos boçais e militares babaquaras, e muitas vezes ele esteve comigo em meu solitário catre sujo de sangue seco, suor, lágrimas e um fulcro nodal de desespero.

 

Nunca gostei de orações, não acredito nelas. O homem e as circunstâncias, é o que vale. Nunca gostei do Pai-Nosso hebraico, muito menos da oração inventada pela Igreja das trevas em tempos profanos de cruzadas que matavam pessoas inteligentes, geniais, com medo das reformas de Martinho Lutero, e da invenção da imprensa que promovia cada vez mais a leitura da Bíblia sob diversas óticas, menos conduzidas por cabrestos abismais.

 

Quantas vezes ali,  depois de apanhar bastante, machucado, sangrando, a pão, água e pesadelos, eu acordava sofrendo e, entre gemidos sósias, via ao meu lado o Cardeal de São Paulo. Ele me pensava como podia no rigor do momento,  no apurado do trauma, com sua voz fina e meiga dizia, sempre, com a sua branquela mão direita cheia de sardas rosas no meu ombro esquerdo:

 

-Seja forte, meu filho. Procure suportar, meu irmão. Sê firme, amigo.

 

E eu o olhava ali, enorme, grandioso, sem nada que pudesse nos ligar, um padre e um comunista, uma borboleta e um escorpião, e o ouvia me dar forças, me encorajar, para que eu fosse firme, quando eu queria mesmo era findar logo, pegar de minha cinta e me dependurar num cano alto, morrer enforcado e acabar com aquilo tudo.

 

Para muitos ele foi um bálsamo. Para mim também. Para muitos ele foi a salvação, a âncora entre o inferno e o sonho. Para tantos ele foi o passaporte da agonia para a esperança. Um Ser Humano e tanto. Insubstituível. Nunca haverá outro como ele. É na dor, na tragédia, no desespero, no medo e na fome, que se conhece o caráter e o referencial de um homem de verve.

 

Confesso que nunca aprendi rezar, sinceramente ainda não acredito muito nisso.

 

No entanto, cresci, fiquei forte, escapei, virei escritor, fui sovado pela dura lida, e, claro, como ser humano tenho medo, tenho presságios, uma angústia-vívere, um ou outro surto psicótico, neuras, e o espírito às vezes atribulado, mais o risco do desemprego, o salário baixo, a falência dos serviços públicos essenciais, e assim até desenvolvi um medo do escuro, uma intuição de lobo acuado, um instinto tribal.

 

No entanto, nessas horas, vem-me à mente a imagem daquele homem santo ajoelhado ao meu lado, um ateu, e ele, Dom Paulo Evaristo Arns, é a oração em pessoa. Um santo? O sentido exato de uma prece na sua mais altaneira definição.

 

Então, alguma coisa em mim – meu espírito aventureiro, talvez; uma certa resiliência psicológica até – talvez uma porta para a luz, fala de mim para mim mesmo, a única oração que eu conheço, que eu aprendi na dor: Seja forte, Seja firme. E eu sinto um calor descomunal me passar pela espinha. Como se uma pilha-luz ligada no aparelho da memória recorrente, um arquivo neural que se assoma e me reconforta, me estimula, me incendeia. E me sustém ainda.

 

E, confesso,  não há melhor oração do que a imagem e semelhança de um homem digno, puro.

 

Perdoem, mas essa foi a única oração que eu aprendi. Essas simples poucas palavras cruas, me dão um sentido enorme de energização. No entanto, somadas num imagético de um momento de terror, me dizem tudo, me sustentam, acho que até, intimamente, podem às vezes me ensinar técnicas de Vôos. Ou me salvar de mim mesmo.

 

Se Deus existe mesmo, quando for a hora do juízo final, amargedom, sei lá o quê mais, e quando eu for pesado na balança, e me cobrarem alguma falta, direi em minha legítima defesa que sei de uma oração de peso, e, certamente direi uma verdade inteira, expressando-a, recitando-a emocionado, com todo seu conteúdo de amor e luz.

 

Após repeti-la, curtinha que é, frase por frase (Sê firme, Sê forte!) direi que, como Oração mesmo, inteira e plena, táctil, presencial, personalizada, conheço mesmo só a exata pessoa do Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns.

 

Independente de placa de igreja, ele foi um mito, um mensageiro, um visitador, um abençoado. E então, assim espero, os anjos de Deus (certamente seus irmãos celestes), com certeza me darão o passaporte da liberdade assistida num limbo qualquer.

 

Num purgatório qualquer muito além desse pardieiro chamado Planeta Água, a nave-cela da escória cósmica, um verdadeiro antro sideral de escorpiões.

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Silas Correa Leite – Estância Boêmia de Itararé, São Paulo, Brasil

Contatos: E-mail: poesilas@terra.com.br

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Livros “Porta-Lapsos, Poemas, Editora All-Print” e “Campo de Trigo Com Corvos, Contos, Editora Design”, à venda na Livraria Cultura: www.livrariacultura.com.br

Prêmio Ligia Fagundes Telles Para Professor Escritor

Texto da Série: “Memórias de Um Tempo Que Não Acabou Dentro da Gente” (Livro Inédito do Autor)

 

 

 

 

 

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POEMA DO HOMEM TRAÍDO

Novembro 28, 2008

 

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POEMA DO HOMEM TRAÍDO

“Esses moços (…) /Vão ao
inferno à procura de luz”

Lupiscínio Rodrigues

Um homem traído é como um basculante
Sob as penas da irracionalidade
Um trator levando tudo de roldão
Como um anjo aleijado preso num fio de alta tensão

Um homem traído com nódoa e rancor
É uma metralhadora cheia de ódio
A bazuca o dezelo e de si mesmo no chão
A pomposa virilidade ferida de íntima expropriação

Um homem traído é um enorme bisonte
Com TNT na subterrânea insegurança
O calcanhar de aquiles na irrazão
E a morte de tudo é o abismo no hades da involução

Um homem traído na contracorrente
Da tragédia-cianureto ao ser de si
Não vale o que foge; nem um tostão
Só se matar a morte fosse como se dissesse não ao não

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Silas Correa Leite, Itararé-SP, Cidade Poema
E-mail: poesilas@terra.com.br
Site: http://www.itarare.com.br/silas.htm

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Álbum de Figurinhas

Novembro 28, 2008

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Álbum de Figurinhas

 

 

 

Ai que saudades que eu tenho

Dos meus álbuns de figurinhas de coleção

Que eu cuidava todo trancham, todo pimpão

Quando guri lá em Itararé

À sombra do lar and jazz

Que os anos não trazem mais.

 

Bolinho de piruá, capilé de groselha preta

O pai floreando o acordeão ou a clarineta

Eu com gibis do Tarzan ou do Flecha Ligeira

E o álbum que devidamente preenchido dava de brinde

De bola oficial de futebol a panela-de-pressão

 

Com meu belo ki-chute pretinho

Tomava crush de canudinho, e de boné

Jogava bate-bafo na rua descalça e rapelava

A petizada pidoncha da periferia de Itararé.

 

Um dia chorei de montão

Porque por mais que a vida por bem ou mal ensine

É a frustração na infância que a desilusão define:

 

-Deixei de ganhar uma bola da capotão

Porque na minha bendita coleção

Faltou uma figurinha carimbada do Belini.

 

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Silas Correa Leite – E-mail: poesilas@terra.comr.br

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Poema da Série “Eu Era Feliz e Não Sabia”

 

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Hello world!

Novembro 28, 2008

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Um Poema Que Salvou Uma Vida

Novembro 25, 2008

O Poema Que Salvou Uma Vida

Ela tinha um maravilhoso lar doce lar. Era bonita, tinha um imponente marido músico, um filho entrando na fase de criança para adolescente, e ainda a idosa mãe viúva que morava com ela. Era feliz e sonhadora, a aqui chamada Estrela (nome fictício para preservar a pessoa). Tive a oportunidade de, uma vez, passar um gostoso domingo com essa amiga virtual que virou presencial. Era encantadora. Trocamos figurinhas literais.

Depois, poucas vezes a vi. Sampa é assim mesmo, uma correria, uma loucura, mas continuando grande amiga e com belos contatos lítero-culturais pela internet, entre um e-mail com curiosidade, uma colaboração para um site que ela fizera, uma idéia trocada em miúdos. Estrela era muito inteligente, criativa, romântica, daquelas que certamente ainda acreditava no amor e na esperança. No vai da valsa, anos nessa luta, eis que senão quando, um final de semana emendado com um feriado religioso, e, escrevendo um fragmento de romance fantástico, de madrugadinha, recebo por e-mail, uma mensagem curta da amiga dizendo apenas: “Meu marido me deixou. Estou muito sozinha. Não há mais saída. Penso em acabar com tudo. Vou me matar.”. Mal-e-mal assinou o nome. Mas era dela, era ela, o jeitão despachado dela em crise.

Eu em casa, com a mulher dormindo, tomando uma cerveja, fiquei passado. Tinha perdido o telefone dela, não me lembrava mais o exato endereço, lembrava vagamente do almoço de quase década atrás. Fiquei sabendo muito tempo depois que a mãe tinha viajado pro interior de São Paulo, o filho numa excursão com a classe, e o marido dizendo que não a amava mais, que tinha outra, fizera as malas e sem mais nem menos a deixara. Ninguém é de ninguém. Estava sozinha e abandonada. O chão se abriu. Pensou em matá-lo. Quem realmente ama não mata. A baixa estima. A depressão. Ligou pra mãe no celular, fora de área. Ligou pro filho, número desligado. Todo telefonema que tentou, ou estava ocupado, ou não tinha ninguém para responder ao chamado urgente, emergencial. Secretárias eletrônicas registraram o grito de alerta. Começou a beber. O diabo provoca. Firmou-se a idéia. Acabar com tudo. O computador de trabalho dela, que era web-design, sempre ligado. Última geração. Lembrou-se então de um amigo poeta, um plantador de sonhos na net. Deu a deixa. Continuou bebendo. Um abismo aos seus pés. Idéias loucas. Entre a sombra e a escuridão. Mas há um Deus. Quando tiramos os sucrilhos brilhantes das estrelas, o infinito é o Criador. Mas ela talvez nem se lembre direito de como escreveu, com que peso no peito entrevado.

Do outro lado da linha, range a rede, palavras são lágrimas de almas procurando céus. Sem saber o que fazer, entrei no arquivo de word e escrevi o que se me veio à cabeça. Feito um louco escrevi. Iluminado? Não sei. Mas escrevi como se estendesse uma mão nas palavras, e mandei depressa, mandei correndo, mandei feito uma garrafa virtual contendo um antídoto, para uma ilha deserta, uma alma perdida, uma ferida aberta no caos das improbabilidades. Escrevi o poema que fluiu com o tema:
SALMO PARA UMA AMIGA POETA

Não são todas as estradas que vão dar no sol.
Há nuvens que nos desviam dos endereços íntimos.
Claras são as mensagens, mas não vemos o que precisamos ver…
Vemos o que queremos ver.
(O que sentimos daquilo que vemos?
O que avaliamos daquilo que pensamos sobre o que vemos?)
Temos os lírios brancos e os campos de lavanda, e o que vemos?
Os gravetos, as pegadas na terra, as sombras.
Olhamo-nos, e não nos reconhecemos.
Em que Sala de Espelhos deixamos os nossos versos mais cândidos?
A poesia pode ser uma janela – um respiradouro.
Escrevo porque não sei me matar.
Na dor, dou testemunho de meu cálice transbordando.
Olho-me, e não me reconheço em mim. Mas sinto algo-alguém acima de mim.
Quem realmente vela o meu pesadelo?
Aquele que anda nas nuvens e incendeia os oceanos.
Aquele que coloca rímel na minha tormenta ácida.
Vejo passos na linha do horizonte.
Cortam-me as esperanças, mas eu me fermento entre avencas
Arrancam-me as mãos mas eu escrevo na parede de um silêncio tácito.
Não quero ser vencido pela dor, pois meu criar arranca as sandálias das minhas abstrações e me faz voar acima de águas límpidas.
Que sal há nas lágrimas? Faço saladas de sonhos.
Que açúcar meu olhar desata? Faço cadarços para vôos além de arrebentações.
E quando o vinagre de meu corpo sai como quireras líquidas, junta formigas para irem distribuir realidades paralelas no meu Eu de mim.
A morte não existe, então porque deixar que ela vença?
Que sabedoria é o amor que tange, marca, mutila, preda e engessa hábitos torneados em dialéticas de ausências?
Tenho caravelas paradas no porto, e caravelas não foram feitas para encalhes de marés.
Há um sextante no mais alto altar de minha espiritualidade
E eu só caminho peregrinador, pois sei que água parada atrai tempestades em corpos estranhos.
Viajo-me no criar.
Alimento-me de ostras de outras dimensões-travessias.
Visto-me de um cacto rosa, e no quartzo-róseo de meu íntimo, procuro flores murchas em saídas de emergências.
Descanso o pulso do meu lado Sentidor, em diálogos com amigos e irmãos secretos.
Dispo-me de amarguras e melancolias
E escrevo salmos-mantras-banzos-blues
Contemporâneos – como um cinzel na minha alma pisada
Só que eu bem sei
Que quando amanhecer um Sabat qualquer, sabendo que meu reino não é desse mundo
Darei manjar de framboesas silvestres aos anjos
E a groselheira seca de minha alma reviçará
Pois é o espírito que ama o espírito
E depois de todas as cisternas, desertos, ilhas, cimitarras, maus pensamentos e butins
Ao religar-me com o Criador, na prece pré-auroral (frente a um tentativa de abismo)
Ele me levantará de mim mesmo, de minha nudez de dezelo atribulado
E me lavará de todas as atribulações humanizadas
Porque “O Que Fez” é a minha rocha
E eu sou apenas uma migalha de sua luz, honra e busca
Para sempre
…………………………………………………………………………………………………………………………………

No outro dia, mal morreram as estrelas, comentei com a minha esposa. A situação Ficou louca, reclamou que eu deveria ter ligado para alguém da área, alguma autoridade, tentando achar o número na lista. Ficou apavorada, solidária, enfim, deu-me até um pito. Fiquei chateado. Triste. De antenas ligadas. Pedindo a Deus uma benção, um milagre, um sinal, um solarium ou um respiradouro. Fiquei de tromba. À tardinha, o suspiro. Minha amiga me respondeu. Estava viva. Triste, amarga, mas tinha sobrevivido. Não me lembro bem exatamente o que ela comentou, como ou com que palavras, faz algum tempo, só sei que foi o mais belo “Obrigado” que recebi em toda a minha vida de uma leitora.

Depois do obrigado, disse que meu poema fora uma benção. Que tinha salvado sua vida. Que o lera muitas vezes, em lágrimas, até dizendo de energia e espiritualidade que eu mesmo não reconhecera no fazer poético feito um jazz improviso. Depois, disse ela, imprimiu o poema, dobrou-o, e o gu arda como um talismã entre seus pertencimentos íntimos.

Quando quis chorar, e quis muitas outras vezes, quando quis baixar a guarda, e teve idas e vindas diversas vezes, quando a depressão pintou, e a dor de uma perda é conferida na ausência que nos tira o chão, ela pega o poema e lê em voz alta, lê pro coração, pra mente, pra alma, lê como uma defesa, um elmo, um resgate íntimo. Então volta-se a si, a cicatrização é triste mas nada como um novo grande amor, para acabar com a perda, a dor e a frustração de um ex-eterno grande amor que não foi para sempre, mas, ainda assim é fechamento de ciclo, lição de viagem, pedra no sapato para você tirar o peso e calçar sandálias de luz.

O poema claro, ganhou a web, teve versão em espanhol, saiu em jornais e revistas, constou em discurso, em tese de fechamento de curso superior, esteve em convite de formatura, foi lido em missa, em festa de natal evangélica, em evento religioso, em funeral feito um salmo contemporâneo de conforto, um e outro sabe da história, outras pessoas em crise me pediram ajuda, conforto, companhia virtual (nem sempre se vê lágrimas no escuro, diz a canção) – a solidão na frente de uma tela de computador com um teclado frio ainda é uma solidão real – e lá mando de novo o otimizado e bendito poema que salvou uma vida.

Posso não ter todos os meus livros lançados, todos os meus trabalhos reconhecidos e impressos, mas, ter escrito este poema, de improviso, de supetão digamos assim, preocupado, sem saber o que fazer mas tentando ajudar na medida do impossível; me colocando no lugar de uma pessoa que rasgava o peito de dor, e ainda assim de alguma maneira ter evitado o pior, a terrível perda, um ato insano, já valeu para mim o antigo velho sonho que tive faz muito tempo lá em Itararé, com pouco mais de oito anos, de ser um escritor, de ser um poeta, de ser um plantador de sonhos na tábua de esmeralda dessa louca vida moderna e sedentária de tantos desencontros, traumas e frustrações.

Enquanto um poema puder salvar uma vida, uma pintura datar uma dor como Guernica, e uma canção poder dizer que o mundo é maravilhoso (Louis Armstrong), vai sempre valer a pena fazer arte, acreditar no amor, na esperança como inteligência da vida, sonhando sempre com um humanismo de resultados.

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Silas Correa Leite, de Itararé, Cidade Poema, São Paulo, Brasil
Autor de Porta-Lapsos, Poemas, e Campo de Trigo Com Corvos, Contos
E-mail:
poesilas@terra.com.br
Site: www.itarare.com.br/silas.htm
Livros do autor no site: www.livrariacultura.com.br

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Cantagonias – Vista-se de Gente

Novembro 10, 2008

CANTAGONIAS
(Vista-se de Gente)

Vista-se de gente.
Você conseguiria?
Cara a cara, o espelho frente a frente
Quem sabe se talvez um dia…
Vista-se de gente
O que nos diferencia?
O humanismo de resultados potente
A esperança que nos alumia
Vista-se de gente.
Antes você parecia
Agora que ao sol tem um lugar-tenente
Você discrimina, diferencia?
Vista-se de gente
O cargo, quem diria
Você quer ser mais do que é, somente
Por neuras de vã hipocrisia?
Vista-se de gente
Negro, índio, todavia
Somos terráqueos da espécie que sente
O remorso de cada dia
Vista-se de gente
Pareça com o que cria
Ou você no íntimo é vulgar e impotente
E serve à selvageria?
Vista-se de gente
Ninguém desconfia
Que você é metade um ser consciente
E do que sobra desconfia
Vista-se de gente
Pareça-se com valia
Por que com a morte em sua frente
Você se anularia…

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Silas Correa Leite
Itararé, São Paulo, Brasil
www.itarare.com.br/silas.htm
E-mail: poesilas@terra.com.br

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Barack Obama: Afro-América

Novembro 7, 2008

PRESIDENTE BARACK OBAMA
Afro-América: Um Negro Afrodescendente no Poder dos Estados Unidos

“Deus não joga dados”

Albert Einstein

Depois de um operário metalúrgico (que foi perseguido, preso e condenado por uma ditadura militar incompetente, corrupta, violenta e senil) no maior país da sulamérica de áfricas utópicas, dando um show no poder do Brasil S/A, surpreendendo o mundo inteiro que elogia o Lula Light que tem um anjo no ombro direito como disse uma rainha européia, afinal, um negro vence as eleições para presidente nos Estados Unidos, e assombra o planeta todo pela conquista histórica. Num país extremamente racista, terra de Luther King, Barack Obama chega ao poder e enche a terra de homens livres de esperança por atacado. Será o impossível?

A América Rica respira luz. A América Pobre espera e confia. O câncer que o funesto neoliberalismo se tornou, uma falsa lei de oferta e procura (o crime lesa-pátria do camuflado livre mercado), máfias e quadrilhas no capitalhordismo americanalhado, depois do pior presidente que os EUA teve, o clã Bush que faliu o país, a esperança finalmente se renova com um negro de origem afromuçulmana de quilate e uma história surpreendente de evolução, determinação, estudos e grandeza limpa.

Parece um filme de Hollywood. Com roteiro de Monteiro Lobato.

Esperamos mudanças. Sim, nós também podemos sonhar com mudanças que ativem qualidades humanas e princípios de humanismo de resultados. Desde o fim do papel de xerife do mundo que os EUA presunçosamente ostenta, desde a abertura ampla e irrestrita do mercado interno para um globalizado mundo de países emergentes como o Brasil, desde o fim do boicote insano à Cuba, até a criação de um projeto de Fome Zero a nível Mundial. Ou, muito pelo contrário, talvez, nem tanto. A política econômica dos EUA é algo engessada, numa estranha democracia de só dois países se revezando no poder, mas, Barack Obama, advogado, negro, protestante que estudou o islamismo, de origem africana pobre, com uma portentosa primeira dama a lhe dar suporte e estrutura, talvez ainda assim e por isso mesmo possa finalmente impor seu estilo e ritmo todo particular de ser, todo pessoal.

As midiáticas aves de mau agouro, no entanto, como bruxas do retrocesso, aventam com a probabilidade do presidente negro vir a ser assassinado. Além de nebulosas lendas a respeito do presidente negro, coisa de reacionários de lá e de cá, mentes pequenas. A triste história se repetirá com Barack Obama também, a partir de poderosos feudos racistas do país mais rico do mundo, que tem a clandestina Klux-Klux-Klan? O mundo está de antenas ligado. Um novo ciclo se inicia.

No lumiar do terceiro milênio, a esperança se renova.

Só nos resta sonhar. Eu tenho um sonho, como Mártir Luther King. As comparações são inevitáveis. Eu era um guri que amava os Beatles e Tonico e Tinoco, e era contra o agente laranja na guerra do Vietnã, quando o grande líder negro dos direitos civis nos EUA foi morto e na verdade nunca se puniu o verdadeiro mandante, como também no caso dos Kennedys e outros.

Que a América Rica em vez de impor sua vontade de império bélico e econômico ao mundo (também em fase de mudanças radicais para melhor em todos os sentidos), parta para princípos éticos-humanitários de rever condições sazonais, atue em negociações honestas de campos diplomáticos, pense em seres humanos, não em estatísticas de bolsas de valores ou índices de crescimentos unilaterais em enriquecimentos ilícitos impostos por neoliberais, principalmente.

E que, em vez de mandar bombas para o Afeganistão, Irã ou Iraque, mande o seu famoso padrão de vida, de qualidade. Imaginem só – eu tenho um sonho (sonhar pode, Lennon?) – aviões norte-americanos de última geração, “bombardeando” países pobres ou com graves problemas, inclusive de fanatismo religioso ou ortodoxia marxista utópica, com tvs, i-podes, mpb-tantos, lap-tops, dvds, além de blues, filmes, hot-dogues, cokes, calça jeans, hambúrgueres, jipes da ford. Quem não quer?

Daremos nossa cota de dor aos brancos anglo-saxônicos?

O mundo espera e confia. Como um estudioso e pensador, sonho, teimo, avalio, mas pressinto, e estou de butuca, sondando o devir, mas torcendo a favor, claro. Quando dá lucro é privado, quando dá errado é público? Tô fora. Vade retro. Como disse o Lula Light quase dez vinte atrás, prefiro um capitalismo onde aquele quem fabrica o carro também possa comprar um. Já pensou? Você pode sonhar comigo.

O mundo espera e confia. Que Barack Obama, estrela democrata seja o que se espera dele, e faça o mundo sonhar com uma paz cantada por John Lennon, e almejada por todos os povos. Que ele seja o fermento da mudança desejada, o sal entre as sepulturas mal-caiadas dos podres poderes insanos no planeta globalizando a sua economia mundializada só para alguns new-richs. Um índio, um religioso, uma mulher, um metalúrgico e agora um negro. Barack Obama será o inicio de um novo ciclo.

Conseguirá ele tirar o decrépito EUA das cinzas da história, das sombras de corrupções e roubos bancários legadas pelo Clã Bush et caterva? Sim, porque recebe a herança maldita do clã Bush, o pior presidente que o país teve, ou também pagará o amargo preço que a história racista dos EUA impõe ao país, entre imigrantes segregados, pobres abandonados à própria sorte, feudos de miséria e exclusão social, modelito canhestro copiado pela américa pobre de tantos ameríndios e afrodescendentes entregue à própria sorte? A sorte está lançada.

No Cassino do Humanus Mundi somos todos da espécie humana.

Que na terra dos homens livres, um negro digno brilhe como o Metalúrgico Lula no Brasil de tantas esperanças revisitadas.

Afinal, a esperança é a inteligência da vida.

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Silas Correa Leite – Poeta, Professor, Conselheiro em Direitos Humanos (SP)
E-mail:
poesilas@terra.com.br site: www.itarare.com.br/silas.htm
Autor de Porta-Lapsos, Poemas, e Campo de Trigo Com Corvos, Contos.
Texto da Série: “Toda História é Remorso” Artigos, Ensaios, Bravatas, Panurgismos e Esperança de Humanismo de Resultados.