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Um Poema Que Salvou Uma Vida

Novembro 25, 2008

O Poema Que Salvou Uma Vida

Ela tinha um maravilhoso lar doce lar. Era bonita, tinha um imponente marido músico, um filho entrando na fase de criança para adolescente, e ainda a idosa mãe viúva que morava com ela. Era feliz e sonhadora, a aqui chamada Estrela (nome fictício para preservar a pessoa). Tive a oportunidade de, uma vez, passar um gostoso domingo com essa amiga virtual que virou presencial. Era encantadora. Trocamos figurinhas literais.

Depois, poucas vezes a vi. Sampa é assim mesmo, uma correria, uma loucura, mas continuando grande amiga e com belos contatos lítero-culturais pela internet, entre um e-mail com curiosidade, uma colaboração para um site que ela fizera, uma idéia trocada em miúdos. Estrela era muito inteligente, criativa, romântica, daquelas que certamente ainda acreditava no amor e na esperança. No vai da valsa, anos nessa luta, eis que senão quando, um final de semana emendado com um feriado religioso, e, escrevendo um fragmento de romance fantástico, de madrugadinha, recebo por e-mail, uma mensagem curta da amiga dizendo apenas: “Meu marido me deixou. Estou muito sozinha. Não há mais saída. Penso em acabar com tudo. Vou me matar.”. Mal-e-mal assinou o nome. Mas era dela, era ela, o jeitão despachado dela em crise.

Eu em casa, com a mulher dormindo, tomando uma cerveja, fiquei passado. Tinha perdido o telefone dela, não me lembrava mais o exato endereço, lembrava vagamente do almoço de quase década atrás. Fiquei sabendo muito tempo depois que a mãe tinha viajado pro interior de São Paulo, o filho numa excursão com a classe, e o marido dizendo que não a amava mais, que tinha outra, fizera as malas e sem mais nem menos a deixara. Ninguém é de ninguém. Estava sozinha e abandonada. O chão se abriu. Pensou em matá-lo. Quem realmente ama não mata. A baixa estima. A depressão. Ligou pra mãe no celular, fora de área. Ligou pro filho, número desligado. Todo telefonema que tentou, ou estava ocupado, ou não tinha ninguém para responder ao chamado urgente, emergencial. Secretárias eletrônicas registraram o grito de alerta. Começou a beber. O diabo provoca. Firmou-se a idéia. Acabar com tudo. O computador de trabalho dela, que era web-design, sempre ligado. Última geração. Lembrou-se então de um amigo poeta, um plantador de sonhos na net. Deu a deixa. Continuou bebendo. Um abismo aos seus pés. Idéias loucas. Entre a sombra e a escuridão. Mas há um Deus. Quando tiramos os sucrilhos brilhantes das estrelas, o infinito é o Criador. Mas ela talvez nem se lembre direito de como escreveu, com que peso no peito entrevado.

Do outro lado da linha, range a rede, palavras são lágrimas de almas procurando céus. Sem saber o que fazer, entrei no arquivo de word e escrevi o que se me veio à cabeça. Feito um louco escrevi. Iluminado? Não sei. Mas escrevi como se estendesse uma mão nas palavras, e mandei depressa, mandei correndo, mandei feito uma garrafa virtual contendo um antídoto, para uma ilha deserta, uma alma perdida, uma ferida aberta no caos das improbabilidades. Escrevi o poema que fluiu com o tema:
SALMO PARA UMA AMIGA POETA

Não são todas as estradas que vão dar no sol.
Há nuvens que nos desviam dos endereços íntimos.
Claras são as mensagens, mas não vemos o que precisamos ver…
Vemos o que queremos ver.
(O que sentimos daquilo que vemos?
O que avaliamos daquilo que pensamos sobre o que vemos?)
Temos os lírios brancos e os campos de lavanda, e o que vemos?
Os gravetos, as pegadas na terra, as sombras.
Olhamo-nos, e não nos reconhecemos.
Em que Sala de Espelhos deixamos os nossos versos mais cândidos?
A poesia pode ser uma janela – um respiradouro.
Escrevo porque não sei me matar.
Na dor, dou testemunho de meu cálice transbordando.
Olho-me, e não me reconheço em mim. Mas sinto algo-alguém acima de mim.
Quem realmente vela o meu pesadelo?
Aquele que anda nas nuvens e incendeia os oceanos.
Aquele que coloca rímel na minha tormenta ácida.
Vejo passos na linha do horizonte.
Cortam-me as esperanças, mas eu me fermento entre avencas
Arrancam-me as mãos mas eu escrevo na parede de um silêncio tácito.
Não quero ser vencido pela dor, pois meu criar arranca as sandálias das minhas abstrações e me faz voar acima de águas límpidas.
Que sal há nas lágrimas? Faço saladas de sonhos.
Que açúcar meu olhar desata? Faço cadarços para vôos além de arrebentações.
E quando o vinagre de meu corpo sai como quireras líquidas, junta formigas para irem distribuir realidades paralelas no meu Eu de mim.
A morte não existe, então porque deixar que ela vença?
Que sabedoria é o amor que tange, marca, mutila, preda e engessa hábitos torneados em dialéticas de ausências?
Tenho caravelas paradas no porto, e caravelas não foram feitas para encalhes de marés.
Há um sextante no mais alto altar de minha espiritualidade
E eu só caminho peregrinador, pois sei que água parada atrai tempestades em corpos estranhos.
Viajo-me no criar.
Alimento-me de ostras de outras dimensões-travessias.
Visto-me de um cacto rosa, e no quartzo-róseo de meu íntimo, procuro flores murchas em saídas de emergências.
Descanso o pulso do meu lado Sentidor, em diálogos com amigos e irmãos secretos.
Dispo-me de amarguras e melancolias
E escrevo salmos-mantras-banzos-blues
Contemporâneos – como um cinzel na minha alma pisada
Só que eu bem sei
Que quando amanhecer um Sabat qualquer, sabendo que meu reino não é desse mundo
Darei manjar de framboesas silvestres aos anjos
E a groselheira seca de minha alma reviçará
Pois é o espírito que ama o espírito
E depois de todas as cisternas, desertos, ilhas, cimitarras, maus pensamentos e butins
Ao religar-me com o Criador, na prece pré-auroral (frente a um tentativa de abismo)
Ele me levantará de mim mesmo, de minha nudez de dezelo atribulado
E me lavará de todas as atribulações humanizadas
Porque “O Que Fez” é a minha rocha
E eu sou apenas uma migalha de sua luz, honra e busca
Para sempre
…………………………………………………………………………………………………………………………………

No outro dia, mal morreram as estrelas, comentei com a minha esposa. A situação Ficou louca, reclamou que eu deveria ter ligado para alguém da área, alguma autoridade, tentando achar o número na lista. Ficou apavorada, solidária, enfim, deu-me até um pito. Fiquei chateado. Triste. De antenas ligadas. Pedindo a Deus uma benção, um milagre, um sinal, um solarium ou um respiradouro. Fiquei de tromba. À tardinha, o suspiro. Minha amiga me respondeu. Estava viva. Triste, amarga, mas tinha sobrevivido. Não me lembro bem exatamente o que ela comentou, como ou com que palavras, faz algum tempo, só sei que foi o mais belo “Obrigado” que recebi em toda a minha vida de uma leitora.

Depois do obrigado, disse que meu poema fora uma benção. Que tinha salvado sua vida. Que o lera muitas vezes, em lágrimas, até dizendo de energia e espiritualidade que eu mesmo não reconhecera no fazer poético feito um jazz improviso. Depois, disse ela, imprimiu o poema, dobrou-o, e o gu arda como um talismã entre seus pertencimentos íntimos.

Quando quis chorar, e quis muitas outras vezes, quando quis baixar a guarda, e teve idas e vindas diversas vezes, quando a depressão pintou, e a dor de uma perda é conferida na ausência que nos tira o chão, ela pega o poema e lê em voz alta, lê pro coração, pra mente, pra alma, lê como uma defesa, um elmo, um resgate íntimo. Então volta-se a si, a cicatrização é triste mas nada como um novo grande amor, para acabar com a perda, a dor e a frustração de um ex-eterno grande amor que não foi para sempre, mas, ainda assim é fechamento de ciclo, lição de viagem, pedra no sapato para você tirar o peso e calçar sandálias de luz.

O poema claro, ganhou a web, teve versão em espanhol, saiu em jornais e revistas, constou em discurso, em tese de fechamento de curso superior, esteve em convite de formatura, foi lido em missa, em festa de natal evangélica, em evento religioso, em funeral feito um salmo contemporâneo de conforto, um e outro sabe da história, outras pessoas em crise me pediram ajuda, conforto, companhia virtual (nem sempre se vê lágrimas no escuro, diz a canção) – a solidão na frente de uma tela de computador com um teclado frio ainda é uma solidão real – e lá mando de novo o otimizado e bendito poema que salvou uma vida.

Posso não ter todos os meus livros lançados, todos os meus trabalhos reconhecidos e impressos, mas, ter escrito este poema, de improviso, de supetão digamos assim, preocupado, sem saber o que fazer mas tentando ajudar na medida do impossível; me colocando no lugar de uma pessoa que rasgava o peito de dor, e ainda assim de alguma maneira ter evitado o pior, a terrível perda, um ato insano, já valeu para mim o antigo velho sonho que tive faz muito tempo lá em Itararé, com pouco mais de oito anos, de ser um escritor, de ser um poeta, de ser um plantador de sonhos na tábua de esmeralda dessa louca vida moderna e sedentária de tantos desencontros, traumas e frustrações.

Enquanto um poema puder salvar uma vida, uma pintura datar uma dor como Guernica, e uma canção poder dizer que o mundo é maravilhoso (Louis Armstrong), vai sempre valer a pena fazer arte, acreditar no amor, na esperança como inteligência da vida, sonhando sempre com um humanismo de resultados.

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Silas Correa Leite, de Itararé, Cidade Poema, São Paulo, Brasil
Autor de Porta-Lapsos, Poemas, e Campo de Trigo Com Corvos, Contos
E-mail:
poesilas@terra.com.br
Site: www.itarare.com.br/silas.htm
Livros do autor no site: www.livrariacultura.com.br

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