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O Kitsch e o Realismo Fantástico

Outubro 20, 2011

O Kitsch e o Realismo Fantástico

Tenho sido assediado amiúde sobre questões – algumas bizarras; outras, nem tanto, não sei por ter atingido a idade da razão – que nos leva a sentir fatalmente as razões da idade. Não sei. E isso sucede não por pressão de amigos, mas por força dos apelos do meio que me cerca. Sei que sou questionado muitas vezes sobre o que é mau ou bom gosto, e sempre acossado, de forma implícita com a máxima popular que reza “gosto não se discute”. E foi precisamente essa máxima que me levou ao conceito de kitsch. E, com ele, a algumas indagações sobre literatura. Por essa vertente, sou inquirido se não é melhor, por exemplo, que as crianças leiam obras do tipo Harry Potter ou similares, do que não leiam nada e que fiquem brincando com vídeo-geimes e quejando. Interpelações desse cariz tem-me intrigado. Devo mesmo confessar que, não raro, fico em dúvida. Não considero, digo de passagem, que seja nocivo às crianças brincarem com jogos eletrônicos. Da mesma forma que não me parece ruim que elas passem algumas horas ao computador. Pernicioso é somente brincar com esses jogos e ficarem o dia todo frente aos computadores. Por outro lado, não estou bem seguro se é de alguma valia ler-se livros de gosto duvidoso, para muitos considerados como lixo “para criar o hábito de leitura”. Na verdade não penso que esse seja o caminho, afinal uma criança ao tomar um remédio de gosto desagradável, pode acabar por ter ojeriza a todos os remédios.
Faz algum tempo li uma matéria de uma importante – e quiçá bastante perniciosa – revista(1) semanal em que o crítico estadunidense Harold Bloom, quando perguntado “Como o senhor analisa o sucesso da literatura infantil atual?”
Deu uma resposta instigante: “É um fenômeno de mercado. A maior parte dos livros para crianças à venda nas livrarias é idiota, não serve para nada, muito menos para suprir a necessidade de leitura de uma criança ou do leitor de qualquer faixa etária. Livros estão sendo confeccionados para vender e se tornar sucessos no cinema e na televisão. Isso nada mais é que uma máscara que oculta o rosto cada vez mais estúpido da era da informação. Os tais livros infantis ajudam a destruir a cultura literária.”
Quando o jornalista indaga, a seguir, sobre se a “Sua opinião mudou em relação à série Harry Potter?”
Bloom completa dizendo: “Odeio Harry Potter. É bruxaria barata reduzida a aventura. É prejudicial ao leitor. Não tem densidade. A escrita é horrível. Lancei a polêmica, sabendo que eu atuaria como Hamlet, que defronta com um oceano de aborrecimentos. Continuo me incomodando com os fãs do pequeno feiticeiro.”
Foi então que me recordei ter lido anos antes em uma também importante revista semanal – e quiçá bastante mais perniciosa que a primeira citada – outra entrevista desse intelectual. Lembrei-me, inclusive, que ao comentar o autor do livro “O Cânone Ocidental”, o hoje falecido jornalista Paulo Francis – contumaz em lançar diatribes contra o Brasil e a sua cultura – rejubilou-se por constar que naquele Cânone não tinha nenhuma obra dos nossos escritores (creio que nenhuma da língua portuguesa), como a dizer que se nos Estados Unidos não se reconhecia valor em nossa cultura, ela não prestava ou não existia.
Antes de citar, porém, a entrevista anterior, a primeira que li de Bloom, vou continuar subvertendo a ordem cronológica e ater-me um pouco mais a essa, somente para ter o prazer mórbido de imaginar os ossos do brilhante polemista raivosamente chocalhando na sepultura, já que ele não pode mais morder a própria língua(2), e citar o que o mesmo Bloom disse, mais adiante, sobre a língua portuguesa e sobre nossa literatura.
“Leio em português com alguma fluência. Machado de Assis figura entre meus autores favoritos de língua portuguesa. Considero Machado o maior gênio da literatura brasileira do século XIX.”
E diz mais: “Machado reúne os pré-requisitos da genialidade. Possui exuberância, concisão e uma visão irônica ímpar do mundo. Procuro um grande poeta brasileiro vivo. Até agora não encontrei nenhum.”
Sobre a língua portuguesa, afirma: “Gosto muito de José Saramago, somos bons amigos, embora eu não concorde com a posição dele em relação à guerra contra o terrorismo. Ele é comunista, respeito as idéias dele, mas não concordo. É um bom escritor. Em poesia, a língua portuguesa legou Camões e Fernando Pessoa. Na ficção, adoro Eça de Queirós e Machado de Assis. (…) Conheço Carlos Drummond de Andrade e ouvi falar de Guimarães Rosa, que adoraria ler. Não sei se terei tempo.”
Feito o registro, e defendido de forma quiçá démodé o país em que nasci, continuo com o tema principal desse trabalho, o conceito do kitsch e sua implicação na literatura, fundamentalmente naquilo em que se relaciona com o realismo fantástico.
É preciso, porém, antes de continuar, dizer-se que necessário se faz ter-se em conta que o realismo fantástico, da forma de que se utilizou (quiçá o tenha criado) Gabriel García Márquez, e Alejo Carpentier, entre outros, principalmente, não está muito subordinado à fantasia apenas, mas ao absurdo, uma vez que a realidade na parte latina do nosso continente é tão surreal; foram tantos os percalços gerados, ao se tentar impor, adaptar a um mundo “bárbaro” padrões europeus de comportamento social, de prática política, que se criou tal mixórdia, ao retratar essa realidade em literatura que os desavisados (e esquemáticos eurocentristas) chamaram-na de fantástica, quando ela o era tão-somente a verdade comum do nosso dia a dia.
Por outro lado, não se pode desprezar que na nossa parte do continente ficou – absorvida ou não, assimilada ou não – um grande contingente de ameríndios de diferentes e em distintos graus de culturas. O que não ocorreu no pedaço anglo-saxão da América, já que lá foi tomada a “profilática” medida de exterminá-los… Isso pode ter contribuído para que lá, naquele espaço, não ocorresse a mesma mixórdia que se deu aqui.
Não sei, porém, se já falei sobre algum aspecto desse assunto em outra ocasião. Se o fiz não importa, por que agora desejo enfocar esse tema sob outro ângulo: tecendo algumas ilações relacionando-o com possível ligação entre o Kitsch e o realismo fantástico. Melhor, entre a fantasia existente em obras Kitsch e o realismo fantástico.
Quando voltei do exílio, bastante familiarizado com o termo, já que tinha uma amiga (filha de uma família uruguaia da elite governante) que sempre o usava, encontrei o país mergulhado em um terrível mau gosto, mas não associei, de pronto, ao conceito do Kitsch, o qual costumava relacionar, quando ainda no exílio, o com a expressão do espanhol castiço, cursi. Mas tarde, quando saí daquele país e fui para o Peru, tomei conhecimento da expressão local – quiçá de cunho popular – guachafo, mais ou menos com o mesmo sentido, ou seja, também relacionada com algo de mau gosto, a qual – para usar uma expressão também local, muito popular – “me encantou”, por parecer-me sonora e, consequentemente, muito expressiva.
Bem, de volta ao Brasil, tendo vindo visitar a Bahia – naquela época minha mãe e irmãos já moravam no Rio de Janeiro – fui ao Museu de Arte Moderna, que já estava instalado naquele magnífico prédio do Solar do Unhão, e lá conheci a arquiteta italiana, a tempos radicada no Brasil, mais precisamente em São Paulo, onde tinha projetado o edifício do Museu de Arte Moderna de lá – aquele original edifício na avenida Paulista, onde se encontra uma importante coleção de arte, reunida por seu marido, Pietro Maria Bardi e adquirida quase toda, segundo comentário quiçá maldosos, graças a expedientes não muito recomendáveis – próximo da chantagem – feitas a milionários paulistanos pelo empresário ligado ao ramo da imprensa, Assis Chateaubriand, o Chatô.
Esses fatos são aqui narrados não para acrescentar dados importantes a esse despretensioso ensaio, mas para situar o leitor (baiano em particular) frente às artimanhas havidas na origem daquele famoso Museu paulista, além de repetir as aventuras daquele paraibano “folclórico”, tido por muitos como um refinado picareta, perdão, embusteiro.
Por que o que me interessa mesmo neste momento é falar que exilado recém-chegado, deparei-me com uma grande curiosidade, muita gente queria conhecer, quanto não tocar, naquelas pessoas que ousaram enfrentar a ditadura militar. Digo isso, porque se não fora a auréola que cercava os exilados é bem possível que a senhora Lina Bo Bardi, não saísse de seus cuidados para ser apresentada a dois pés-rapados (assim dito por que fui acompanhado de outro companheiro, também baiano e ex-exilado, o agrônomo Zenildo Barreto), sem nenhum brilho na constelação cultural da Pátria.
Naquela ocasião havia uma exposição no museu sob o instigante título “O Direito ao Feio”, justamente organizada pela a senhora Bo Bardi. Tratava-se de peças de pinguins de geladeira, anões de jardim, flores de plástico, estatuetas de Papai Noel, imagens ligadas ao candomblé, entre elas figuras de nórdicas sereias representando Iemanjá, mas também havia estatuetas feitas em gesso, do diabo e até a famosa Pomba Gira. Ou seja, figuras kitsch expostas nas casas das pessoas, hoje ditas de baixa renda, que eram chamadas naquela época de pobres, mas talvez fossem apenas pobres por escassa escolaridade.
No momento não relacionei aquela exposição com o termo kitsch, tão meu conhecido. Estava redescobrindo o Brasil, com a cabeça ocupada com outras coisas, em especial com determinada particularidade, da qual falei algures, nessas linhas, relacionada com a curiosidade que algumas muitas mulheres tinham de falar ou tocar nos exilados, mui especificamente tocar, em particular, em determinadas partes do nosso corpo. Porém, o faziam – as muitas que assim procediam – não com fins libidinosos, é justo que se diga, mas por mero afã recreativo, de diversão e lazer.
Mas já estou eu a desviar-me do tema principal deste texto que deveria ser um ensaio, mas que começa a ter características de crônica memorialística, como sucede amiúde com quase tudo que escrevo. Justo é, pois, voltar à distância que separa a fantasia contida no realismo fantástico e o uso vulgar que se faz da fantasia em obras cujo único objetivo é vender. Não me lembro se naquela época já estavam em voga, entre nós, os termos cafona e brega, creio que seriam as formas populares de se referir ao kitsch.
Tempos depois, já devidamente assimilado pelo meio social da pátria, ao ler o livro de Milan Kundera(3) “A Insustentável Leveza do Ser”, encontrei uma esplêndida digressão sobre o kitsch. Mas tarde, li em Paulo Francis – quando ele já morava em Nova Iorque e de lá mandava matérias para alguns jornais daqui, quase sempre com diatribes contra nosso país – a afirmação de serem aquelas páginas a melhor definição do kitsch.
Já no século XXI – e morando definitivamente em minha terra, Bahia – li em uma revista(4) de grande circulação, o arquiteto paulista e decorador em evidência José Antônio Sig Bergamin afirmando: “Kitsch é o brega assumido, mas com toques de bom humor,” e dizia ainda que esta palavra, embora pudesse ser comparada a cafona, havia, entre as duas sutis diferenças, porque “cafona é a aberração, o mau gosto levado ao pé da letra, aquilo que dói aos olhos.”
Em uma vista d’olhos nos dicionários – coisa que faço amiúde – encontrei, no Houaiss, como informação etimológica, que essa palavra, kitsch era o mesmo que lixo, vinda do verbo kitschen, relacionado com “varrer a lama ou o lixo das ruas, juntar restos ou objetos inúteis”; usada, por volta de 1925, em relação a algumas obras de artes, que se caracterizavam “pelo exagero sentimentalista, melodramático ou sensacionalista, frequentemente com a predileção do gosto mediano ou majoritário, e pela pretensão de, fazendo uso de estereótipos e chavões inautênticos, encarnar valores da tradição cultural”. Podia aparecer, na literatura, na pintura, com particular frequência na decoração e em relação aos souvenires. Citava mesmo a máxima que afirmava: “as massas manifestam amor pelo kitsch”.
Já no Aurélio(5), depois de confirmar que a palavra era de origem alemã, informava que o Kitsch (e aconselhava usar maiúscula quando o termo fosse empregado como substantivo) era o “estilo, ou material artístico, literário, etc., considerado como de má qualidade, em geral de cunho sensacionalista ou imediatista, e produzido com o especial propósito de apelar para o gosto popular.” Nos últimos anos, o Kitsch está sendo usada com significado similar a brega. No entanto, esta palavra, na Bahia, está relacionada com zona de prostituição, ou seja, o próprio lugar das prostitutas, os lupanares. Nesta acepção, ficaria implícito que as prostituas teriam acentuado mau gosto. Rápida passada pela Internet(6), encontrei informações genéricas, como quase sempre se dá, bem ao gosto “kitsch”, diria.
De interessante deparei-me só com o dado de Umberto Eco(7), sugerindo algumas curiosidades etimológicas sobre a origem do termo: “Segundo ele remontaria à segunda metade do século XIX, quando os turistas americanos em Mônaco, querendo adquirir um quadro, mas a baixo preço. Pediam o “esboço” (sketch). Daí teria vindo o termo alemão para indicar a vulgar pacotilha artística para compradores desejosos de fáceis experiências estéticas. Todavia em dialeto meklem-burguês(8) existia já o verbo kitschen por “recolher o barro da estrada”. Uma outra concepção seria “mascarar móveis para parecer antigos”, enquanto se tem o verbo verkitschen por “vender a baixo preço”.
No mesmo texto consultado, é dito em relação ao “princípio de mediocridade”, que “o kitsch chega próximo do vulgar, mas essa mediocridade facilita a absorção do consumidor”. E que do ponto de visto do “príncípio de conforto” o kistch, “enche a vida da sociedade de consumo de sensações, emoções e pequenos prazeres”.
Dizia, ademais, que o “termo kitsch é utilizado para designar o mau gosto artístico e produções consideradas de qualidade inferior. Aparece no vocabulário dos artistas e colecionadores de arte em Munique, em torno de 1860 e 1870, com base em kitschen, [atravancar], e verkitschen, [trapacear] (vender outra coisa no lugar do objeto combinado), o que denota imediatamente o sentido pejorativo que o acompanha desde o nascimento”.
Bem, continuando, mais adiante encontrei algo digno de ser citado: “O kitsch se populariza na década de 1930 com as formulações dos críticos Theodor Adorno (1903-1969), Hermann Broch (1886-1951) e Clement Greenberg (1909-1994), que o definem por oposição às pesquisas inovadoras da arte moderna e da arte de vanguarda. Pensando o kitsch com base no conceito marxista de ‘falsa consciência’, Adorno localiza-o no seio da indústria cultural e da produção de massas. Broch, por sua vez, opõe a arte criativa às imitações e convenções artificiais que orientam as produções kitsch. Greenberg define o ‘estilo’ como arte da cópia, das ‘sensações falsas’ e da obediência às regras acadêmicas. Nesse sentido, o kitsch é definido como o avesso da vanguarda. Diz ele: ‘Onde há uma vanguarda geralmente também encontramos uma retaguarda’.”
Foi em função desse fragmento do pensamento de Greenberg, “[…] da obediência às regras acadêmicas”, que me veio também à mente uma velha implicação que tenho em relação aos trabalhos acadêmicos, em particular “aos primeiros passos ao caminho para o paraíso” que representa a empáfia de alguns que ostentam altos títulos universitários. Certa ocasião ouvi de um doutor que “não lera um texto (ou paper, como gostava de chamar do alto do pedestal do seu título) porque era eclético, com muitas citações, e ele tinha dificuldade de acompanhar o raciocínio do autor. Reconhecia, porém, que o trabalho tinha consistência”. Na ocasião pensei que o jovem doutor era falto de conhecimentos, para não dizer inteligência. Foi por essa época que cunhei a frase: Doutores de uma nota só. Que somente não me causou mais dissabores porque “moro longe” – como se dizia no meu tempo de jovem – e poucos eram os que liam minhas diatribes. Ao ler a citação de Greenberg solidificou em meu espírito uma certeza que avinha a incomodar fazia algum tempo. Nada era mais chato (ou cacete, antes dessa palavra transformar-se em vulgaridade) de que um daqueles papers universitários. Monótonos e enfadonhos, tinham todos o mesmo padrão, ou seja, as ideias eram expostas sempre da mesma forma. Em nenhum daqueles trabalhos podia-se vislumbrar a opinião do autor, todos começavam com – digamos assim – com uma introdução padronizada, para logo a seguir aparecer uma citação do tipo, fulano disse tal coisa, beltrano desse tal outra. Da modéstia depressão do meu parco saber, nunca imaginei que aquele era um comportamento Kitsch.
E o eram porque os artigos de conclusão de licenciatura(9), as dissertações de mestrados e as teses de doutorados, todos eles, no fundo, no fundo, não passavam de flores de plásticos, só aparentemente diferentes, mas, no espírito, completamente iguais, como os pingüins de geladeira, os anões de gesso dos jardins e outras estatuetas similares. Nesses trabalhos pode-se encontrar tudo, menos aquilo que pensam os seus autores. E como sou de opinião que ensinar é ensinar a pensar, como ficamos?
Sabia, ademais, que Adorno, Broch e Greenberg eram intelectuais de pesos, mas temia que as referências a eles fossem – como sói ocorrer com aquela enciclopédia – feitas en passant(10) – sem o cuidado e a profundidade necessários. Sem embargo (ou por isso mesmo) continuei com aquela pequena pesquisa.
Mais adiante, nesse mesmo artigo, encontrei “Ainda que, muitas vezes, se fale no kitsch como um conceito universal – reconhecível, portanto, em qualquer época e estilo artístico –, a maior parte dos estudiosos encontra-o no seio da sociedade industrial, de feitio burguês, o que faz dele um dos produtos típicos da modernidade (Eu diria: típico da sociedade de consumo). A pujança do kitsch, indica Abraham Moles(11), coincide com a expansão do mercado e a emergência da sociedade de massa que impõem normas à produção artística ditadas pela difusão e possibilidades de aquisição de produtos artísticos – de modo geral, reproduções e cópias – em função dos baixos preços(12). Os grandes magazines, que abrem as portas a partir da segunda metade do século XIX, dão vazão aos novos produtos que visam agradar a classe média: porcelana, bibelô, estatueta, cromo com reproduções de estampas e/ou figuras célebres etc. O kitsch apresenta-se desse modo como a arte que está ao alcance do homem, disponível nas vitrines e casas comerciais”.
No entanto, meu temor em deparar-me com artificialidade, esbarrou em três parágrafos que me deram algo a pensar, surpreendendo-me positivamente. No primeiro estava expresso que “Os artifícios do mundo burguês revelam-se nos produtos kitsch, confeccionados em geral com novos materiais que nunca se apresentam como são: a madeira é pintada imitando o mármore; os objetos de zinco, bronzeados; as estátuas de bronze, por sua vez, douradas. A norma consiste em utilizar matéria-prima considerada inferior – por exemplo, gesso, estuque, ferro e zinco – dissimulando-a para que pareça nobre”. E continua este parágrafo: “[…] Nota-se ainda a tendência ao exagero e à acumulação de elementos numa só composição. Nesse sentido, a arte kistch é essencialmente sincrética, alimentando-se de elementos retirados de diferentes escolas e artistas. Localiza-se, assim, nas antípodas da funcionalidade e do despojamento que caracterizam, por exemplo, as obras da Bauhaus(13)”.
No segundo parágrafo vemos que “A despeito das considerações críticas sobre a existência de uma oposição entre o kitsch e as vanguardas, nota-se uma estreita relação entre os termos: tanto as produções kitsch incorporam procedimentos das vanguardas quanto, ao contrário, diferentes movimentos de vanguarda se interessam pelo kitsch […]” E dá, como exemplo, a travessura de “[…] Marcel Duchamp (1887-1968) numa reprodução da Gioconda de Leonardo da Vinci”. E conclui o parágrafo: “[…] O ato e a obra de Duchamp empreendem uma leitura da tradição com caráter falsificado e postiço que ela assumiu no mundo moderno”.
Mais além do implícito sabor de traquinice infantil, não totalmente isenta de humor, ironia e da busca de publicidade – atitude que, em última instância, não deixa de ser uma atitude Kitsch – a colocação de bigodes na Mona Lisa, que Duchamp realizou, cujo “caráter de arte de vanguarda” possa estar apenas no peso do nome do autor, continuemos, pois, com aqueles textos tirados da Internet.
Depois de citar toda uma série de loucuras surgidas após aquela Guerra – loucuras essas que, diga-se de passagem, jamais se aproximaram do grau de insanidade dos atos praticados por ambos os lados que combateram naquela ocasião –, dando como exemplo “[…] as naturezas-mortas de Tom Wesselmann (1931), compostas com produtos comerciais; os quadrinhos de Roy Lichtenstein (1923); as esculturas de Claes Oldenburg (1929), em Duplo Hamburguer, 1962; e as obras de Andy Warhol (1928-1987), 32 Latas de Sopas Campbell, 1961-1962 […]”. Para concluir afirmando que “[…] O pós-modernismo da década de 1980 rompe mais uma vez, e com resultados diversos, as fronteiras entre o kitsch e a chamada arte erudita”, restando-nos a pergunta se essa ruptura se deu por rebeldia inerente aos vanguardistas, de todas às épocas, ou se como um brado a insinuar (dizer?) que o nosso mundo está cada dia mais medíocre? Assim sendo, a arte nele produzida só pode retratar o feio, o Kitsch.
O que se seria de indagar, contudo, é se essa postura dos artistas ligados à arte pop nasceu de um frio calculo intelectual, ou se por feridas psicológicas deixadas pela insanidade dos atos praticados por ambos os lados que destruíram grande parte da Europa, por falta de sensibilidade similar à presente na alma dos grandes gênios criadores, do porte de um Miguelangelo (em Davi, por exemplo), capaz de captar no mármore as proporções exatas da musculatura humana, além de reproduzir a perfeição, na pedra, o sentimento que podia estar, não no rosto do modelo, mas imaginado pelo escultor. Ou, especula-se, seria por que a incapacidade de captação estética deu-se devido a que suas almas estavam esterilizadas justamente pelas brutalidades havidas durante aquele conflito bélico?
No último dos três parágrafos a que me referi, é dito que o “[…] período posterior à Segunda Guerra Mundial, 1939-1945, a arte pop(14) retira o sentido pejorativo que cerca o kitsch. A arte pop se apresenta como um dos movimentos que recusam a separação arte/vida, e o faz – eis um de seus traços característicos – pela incorporação das histórias em quadrinhos, da publicidade, das imagens televisivas e do cinema. Ao aproximar arte e design(15) comercial, os artistas superam, propositadamente, as fronteiras entre arte erudita e arte popular, ou entre arte elevada e cultura de massa, flertando sistematicamente com o kitsch”. Afirmação que, de certa forma, não deixa de ter seu quinhão de verossimilitude, afinal em um mundo que destruiu seus próprios valores morais e intelectuais, quando se passou a enaltecer – como o sugeriu o poeta –, de forma generalizada o ter em detrimento do ser. E, finalmente, em um mundo que tinha como pano de fundo cidades completamente destruídas, centenas de órfão, viúvas e mutilados vagando por entre montanhas de ossos humanos – calcinados ou em fase de… – em busca de comida no lixo – lixo esse composto particularmente de latas de carne e sopas da abundância capitalista do lado vencedor –, teria mesmo que incorporar, como belo, o feio. E esse trabalho coube aos artistas nascidos dos escombros daquele mundo pós-guerra. Artistas desesperados, de almas feridas, que só conseguiam expressar-se daquela forma e, para fazê-lo, apoiavam-se nas drogas. Não seria por acaso que o mergulho em psicotrópicos – tão em voga no final do século XX e atualmente neste nosso século XXI – é chamado de viagem. Viagem – frise-se bem – em busca de um mundo perdido, só existente na memória dos sobreviventes nas diferentes obras de arte ou como herança genética coletiva.
Em outro artigo(16), também da Internet, encontrei algo assaz interessante, que começava com a pergunta: “O que é ser Kitsch???!!!!”
E, depois desta introdução: “Este site tem um nome que envolve dois conceitos propositado ou aparentemente contraditórios”, e vinha a resposta: “Se as qualidades do cult(ura) são a uma busca em direção ao conhecimento original e genuíno, o Kitsch é uma arte falsa, de fácil compreensão, para mero entretimento e prazer e reprodução de padrões já existentes.
“O Kitsch surge como a kultura acessível a todos, com o aparecimento e ascensão da classe média, da produção em massa e da vida aborrecida dos tempos mortos gerados pela diminuição dos horários de trabalho.
“Como tal a Cultura e a Arte tornam-se Kitsch quando são produzidas em massa e com o objetivo de se adaptar ao público e ao Mercado (isto não é arte é design).
“A Cultura e a Arte como mera reflexão do status atual da sociedade é exatamente o conceito legitimador para ser aplicado ao Kitsch da Kultura de massas com a sua falsa consciência estética e pseudo-catarse social”.
Com essa matéria, em que aventa outros ângulos da questão relacionados ao Kitsch, entrando até em conflito com o que é dito naquela enciclopédia, levou-me a especular, uma vez mais sobre a ligação intrínseca entre o Kitsch e o capitalismo, se o desenvolvimento do primeiro não acompanhou ou obedeceu pari passu o segundo?
Foi então que solidificou em minha mente aquilo que vinha suspeitando faz algum tempo. O Kitsch está inseparavelmente associado à sociedade de consumo, filha dileta e objetivo último do capitalismo. Porque o desenvolvimento desse sistema – acumulador, por excelência – implica em que se consuma sempre mais. E como para que tal suceda, é preciso que se fabrique sempre mais. E como a forma mais dinâmica de fabricação tem que obedecer ao ditame de ser fazer sempre o mesmo objeto e sempre da mesma forma, ainda que possa conter pequenas e aparentes modificações. Tendo sido esse princípio justamente o que determinou o surgimento da linha de montagem, dessa forma as bases do Kitsch industrial (digamos assim) estavam, senão criadas, mas certamente solidificadas.
E isso se deu quando Henry Ford, ao criar (ou aperfeiçoar) aquela linha tornou possível que o seu Ford T fosse adquirido de seca a meca e olivais de Santarém(17), graças a um modelo padrão, significando isso que todos deveriam usar um mesmo tipo de automóvel, como os colegiais usavam o mesmo uniforme, as bases do Kitsch industrial (digamos assim) estavam criadas. Não foi por acaso que foi glosado o mote(18) publicitário – perdão – o slogan: “Você pode escolher a cor do seu Ford T, desde que seja preto”. Indispensável dizer que, por razões de produção de massa, aquele automóvel só era fabricado naquela cor.
Nas aulas de História, no meu tempo de menino, falava-se que antes das Grandes Navegações, mais precisamente antes de os portugueses terem trazido do Oriente a cana-de-açúcar para o Brasil, o produto resultante da elaboração dela, justamente o açúcar, fazia parte do dote das princesas, em uma proporção de dois quilos, devido a seu alto custo. A manufatura em grande escala tornou esse preço irrisório, no entanto permitiu que milhões de pessoas pudessem adquiri-lo em escalas expressivas (quase disse “globais”), dando um salto muito parecido à inversão daquilo que os marxistas classificavam como salto de qualidade. Só que, uma vez que todos a compravam a quantidade superava a qualidade. Dessa forma o eventual lucro pela venda de dois quilos a umas poucas princesas, foi superado pela venda de toneladas a milhares de pessoas.
Saltando do século XVI para nossos tempos, poder-se-ia citar os exemplos dos computadores portáteis, dos celulares e tantas outras bugigangas eletrônicas – perdão –gadgets, sem as quais ninguém mais pode viver no mundo atual. Produtos que, de forma mágica, saem sempre novas fornadas, com inovações de pacotilha.
Por outro lado, a mesmice padronizada atingiu a todos os setores da vida humana, se é que se pode chamar de vida o ato monótono de consumir e consumir mais. Não foi por acaso que alguém, possivelmente um desesperado, disse que a civilização Ocidental está em contradição com a vida. O que não resisto em solicitar que atualize essa máxima: E a milenar civilização do Oriental caminha no mesmo sentido, também.
Não há nada mais monótono do que os apartamentos de um hotel – de luxo ou mais modesto – sua recepção, seus móveis, o que servem em seus restaurantes. Pode haver algo mais sensabor do que os shoppings centers? Sempre que necessito entrar em um volto a constatar que eles são verdadeiros – com perdão do lugar-comum – templos do consumo. Por outro lado não me eximo de fazer comparação com os bazares – em sua forma original persa ou como os árabes copiaram-no –, e penso se os shoppings não seriam a versão moderna daqueles estabelecimentos, com a diferença visual entre ambos – os bazares no seu harmônico colorido, seu exotismo e sua arrumação aparentemente caótica –, mas parecendo a expressão da arte popular espontânea; enquanto os shoppings – com suas lojas padronizadas, suas vitrines assépticas, sua iluminação sempre igual –, não seriam a versão moderna e, portanto, Kitsch, daqueles tradicionais estabelecimentos?
Chegado a esse ponto de minhas especulações, algumas delas instigadas pelo que li em especulações alheias, constato que tudo que consegui amealhar foram ilações relacionando o Kitsch ao mundo do suvenir, da decoração, da arquitetura, da reprodução em gesso de estatuetas, mas nenhuma inferência com literatura.
Foi aí que me lembrei outra vez de Paulo Coelho, e de obras do tipo Harry Portter, “O Senhor dos Anéis” e “Crepúsculo(19)” e caterva. Mas isso me revelava, paradoxalmente, um outro problema. O que seria o Kitsch em literatura?
Durante muito tempo também assim foram consideradas as novelas policiais, do tipo Ágata Christie, mas aquele tipo de literatura que fora classificadas (ou o fora por muito tempo) como apenas entretenimento, talvez não se enquadrasse muito nesse conceito, até mesmo por que a chamada “dama do crime(20)”, com o passar do tempo, acabou sendo cultuada por muitos(21), e começou a ser considerada cult.
Onde então minhas preocupações iriam parar?
Em autores do tipo Corin Tellado(22) e similares? Talvez. Pois, ao constatar que essa autora, sem o apoio dos meios de comunicação impunha-se ao mercado, criava gostos e necessidades, além de suprir anseios e satisfazer sonhos de pessoas hoje chamadas de baixa renda – o que já a aproximava muito de um tipo de livros atualmente chamados de auto-ajuda, da qual Paulo Coelho é o guru máximo – vendeu milhares de exemplares e por muitos anos e em vários países, voltei aos meus demônios preferidos: o próprio Paulo Coelho(23), e as obras do tipo Harry Portter, “O Senhor dos Anéis” e “Crepúsculo”, e não podia deixar de supor que esses livros eram a versão, em letras impressas, de objetos como a Barbie e outros bonecos de plástico, vendido em profusão e consumidos por muitas e muitas gerações.
Mas o primeiro daqueles autores – que também vende milhões em todo o mundo – foi agraciado com a Legião de Honra do governo francês, tendo sido, logo a seguir, admitido na Academia Brasileira de Letras – ABL – mas esse último detalhe o era de somenos importância, uma vez que daquela Academia fizeram parte – ao lado de nome gloriosos de nossas letras –, Assis Chateaubriand, um general da ditadura, Roberto Marinho e outros espécimes.
Foi em uma conversa com minha amiga (e secretária) Juscimare Silva de Souza, cujo artigo de licenciatura baseou-se justamente no realismo fantástico, que me forneceu a pista para o título desse trabalho e, de passagem, para concluí-lo sem chegar, contudo, a uma coerente conclusão. Afinal, mesmo excluindo Paulo Coelho – autor ligado a auto-ajuda(24) –, os livros do tipo Harry Portter, “O Senhor dos Anéis” e “Crepúsculo”, em matéria de fantasia eram, como diziam seus adoradores, dez. Então ela me perguntou o que aquele pormenor tinha a ver com o realismo fantástico?
Já tínhamos conversado que fantasia era um dos componentes daquela escola literária, mas não o único. Ademais, a fantasia mais engenhosa podia ser prejudicada se fosse expressa em termos vulgares, por meio de lugares-comuns, clichês. Então, estendemos nossa conversa para a manifestação do Kitsch em ocorrências do cotidiano. Podia haver situação mais Kitsch do que a tendência existente entre pessoas das classes médias baixas e entre as chamadas emergentes do que a colocação de nomes vindos do inglês em seus filhos?
Quando esse prenome era aportuguesado, a situação Kitsch superava o mau gosto para cair no ridículo simplesmente, como corria no caso de nome duplo Uésler Uéndel. Recordei-me ainda de uma jovem que tinha sido registrada como Vilma, mas como usaram a letra o dáblio em vez do vê inicial, ela dizia-se Uilma.
Havia, porém, a situação mais Kitsch que tinha constatado em relação a nomes. Um importante jogador de futebol, que fora defensor do meu clube preferido, o Vasco da Gama, que se chamava Odivan (ou Odivã). Este declarara em um programa da TV, que seu pai inspirara-se em uma música cantada por Roberto Carlos, que tinha um verso com aquele nome. Resulta que não havia “aquele nome”, mas uma frase que falava de “O divã”, no caso divã era uma “espécie de sofá sem encosto”, ou uma “espécie de canapé que pode ser usado como cama”. A palavra viera do persa, através do francês, conforme se via nos dicionários. Quando à vogal inicial fora apenas o artigo masculino singular que, em curiosa fusão, dera origem ao agora prenome Odivã.
Depois parei com esse lado da manifestação do Kitsch, afinal estava a invadir área de especial estudo do meu amigo, João Pina Cabral, antropólogo português que, quase todo ano, visitava-nos em Valença, BA, especialista em nomes em nosso idioma. Ademais, essas situações, mesmo classificadas como Kitsch, talvez fosse melhor chamá-las pela forma popular, tão em uso entre nós, de cafona ou de brega, afinal nasciam do impacto entre dois excessos, o de informações e o de falta de escolaridade. Ou ignorância, como dizíamos na Bahia quando eu era jovem.
No entanto, ao falar do problema da fantasia e como ela era expressa de forma vulgar, lembrei-me de retornar a primeira entrevista de Harold Bloom(25), famoso crítico estadunidense, dada a uma grande revista(26) semanal, em particular a uma afirmação que ele fez à pergunta: “Por que não ler os livros de J.K. Rowling, a autora de Harry Potter?”
A que ele respondeu: “Li apenas uma das obras dessa autora. A linguagem é um horror. Ninguém, por exemplo, ‘caminha’ no livro. Os personagens ‘vão esticar as pernas’, o que é obviamente um clichê. E o livro inteiro é assim, escrito com frases desgastadas, de segunda mão. Escrevi uma resenha para o Wall Street Journal falando mal de Harry Potter. A polêmica foi imediata. Foram enviadas mais de 400 cartas me xingando de todos os nomes. A defesa de livros ruins como esses, que vem de todos os lados – dos pais, das crianças, da mídia –, é muito inquietante e nem um pouco saudável.”
Antes, porém, com alguma ironia, Bloom responde, quando é perguntado: “Livros como os da série Harry Potter não são uma boa porta de entrada, um meio de despertar nas crianças o interesse pela literatura?” Esse tipo de postura, pergunta ou questionamento, é comum ouvir-se entre nós, a qual me referia no início deste trabalho, e que agora reforço apoiando-me na resposta de Bloom: “Você realmente acha que as crianças vão ler coisas melhores depois de ler Harry Potter? Eu acho que não. E um dos piores escritores da América, Stephen King (ele é terrível, não consigo ler nem dois parágrafos do que escreve), confirmou minhas suspeitas numa resenha que escreveu para o jornal The New York Times. Segundo ele, as crianças que aos 12 anos estão lendo Potter aos 16 estarão prontas para ler os seus livros. Preciso dizer mais? Os Estados Unidos são um país em que a televisão, o cinema, os videogames, os computadores e Stephen King destruíram a leitura.”
Lendo Bloom não pude deixar de concluir que se o caminho para se chegar ao mundo mágico do realismo fantástico for por meio daqueles livros, é melhor começar a compor um réquiem não só àquele gênero de literatura, mas para a cultura como um todo.
Sabia que “vender livros” era, quase sempre (como sucede em relação a todos os produtos da sociedade de consumo), uma questão de marketing e não de qualidade. O meu amigo Alfredo Gonçalves de Lima Neto, um dos melhores contistas entre os novos escritores hoje do Brasil, costuma, grosso modo, dizer: “Você não compra um livro por que deseja ler, mas por que seu vizinho comprou (sem nenhum propósito de ler), seus colegas de trabalho também (com a mesma finalidade) compraram. Ou seja, compra por que a mídia falou que é bom, então todos (uma grande e anônima maioria que faz parte do seu universo) assim o fizeram. E você também.”
Certa feita meu amigo expressou-me: Sou muito resistente a determinados modismos. Sempre pensei que há uma boa distância entre uma brincadeira com roupagem de rebeldia de algum escritor e a busca de tornarem-se ainda mais célebres, uma vez que há pessoas que, mesmo já possuindo fama, não estão isentas de buscar mais 15 minutos de glória, sempre que possível. Acho ainda que a maioria dos artistas – inclusive os da palavra – não é imune às posturas polêmicas com apenas o fito de colocar-se mais em evidência. Tomo, como exemplo, o caso da poesia concreta. Ela nunca chegou ao meu coração e, muito menos, a minha sensibilidade. Ela, ao usar as palavras para formar grafismo, para reforçar a idéia, não me desperta estesia. Penso que a palavra em si tem tanta força que dispensa a ilustração, mas penso também que a força das palavras está no conjunto de seus significados, no poder de suas sílabas e, no caso da poesia, na beleza da sua sonoridade.
Em outra ocasião, estávamos conversando, e o meu amigo indagou-me se não haveria uma relação de causa e efeito entre a oferta de obras relacionadas com o Kitsch e a procura ávida, por parte de uma grande massa, dessas mesmas obras? Citou-me, como exemplo, o que ocorria durante o carnaval em Salvador – período em que impera essa coisa execrável que é o axé-music –, quando, vez ou outra, ocorria dalgum músico executar a Ave Maria de Gounod(27) e até pequenas obras de Beethoven, de cima do trio elétrico, para delírio da massa embriagada de cerveja e de outras drogas. Vendo por minha expressão que não estava atinando para o alcance da sua observação, Alfredo complementou dizendo que muito bem poderia estar sucedendo um fenômeno típico desses tempos pós-modernos. E vendo que a minha perplexidade persistia, acrescentou: “Bem, pode ser que esses músicos, alguns de inegável talento, ao executarem peças clássicas, estejam dizendo (ou insinuando) que o lixo que executam durante o carnaval – ou Kitsch, como você gosta de classificar – seja apenas para satisfazer as massas ignaras – e, naturalmente, para ganhar dinheiro –, mas que eles sabem perfeitamente o que é música de bom gosto”.
Claro que ele não excluía a existência de oportunistas, especialmente cantores, que apelavam para letras cuja rima – ou melhor, o refrão (pois essas se consistiam apenas de um cantochão repetitivo) – era apenas pornografia grosseira, melhor dizendo, pornofonia de infligir a lei dos bons costumes. Esses eram precisamente os mais vendidos, os mais tocados, ainda que essa evidência fosse efêmera, para que no próximo carnaval outros exemplos com o mesmo mau gosto surgissem e fossem acompanhados ao delírio.
O que não deixava de ser verdadeiro, e aplicava-se a vários produtos adrede criados com esse objetivo. Afinal a aceitação ou não de um produto novo – e quanto mais supérfluo fosse mais válida seria essa premissa – pelos consumidores estava sujeita a uma boa estratégia de lançamento. Marca-se uma hora em que o produto estaria disponível em uma grande cadeia de lojas de departamento. Para isso, usava-se de uma também boa estratégia de divulgação por todos os meios da mídia. Alguma celebridade daria uma entrevista dizendo que estará entre os primeiros a ir à loja comprá-lo, e outras baboseiras do gênero. Pela madrugada haveria uma longa fila à porta do estabelecimento, onde os meios de comunicação fariam entrevistas relâmpagos, quando seria dito que “acampei aqui desde ontem”. Mostrar-se-ia seguranças atentos para prevenir quaisquer tumultos na hora da abertura das portas. Possivelmente se faria uma contagem regressiva, como o lançamento de um foguete. Pronto. Estaria assegurado o sucesso de vendas. Não foi por acaso que uma multinacional, cujo produto mais importante é uma sandália de borracha, transformou-a em um produto indispensável às mulheres de todo o mundo, as que podem consumir.
Por isso que um importante executivo de outra empresa declarou, grosso modo, em entrevista à TV, “quem transforma em pedaço de borracha em um produto indispensável a milhares de pessoas, é um gênio”. E citava o nome desse gênio: uma mulher.
Imagino, ao ver o número de exemplares que aqueles livros venderam em todo o mundo, que foi usada estratégia semelhante. E essa estratégia aplica-se a salsichas, a cremes de beleza (para mulher e agora para alguns homens também), a celulares, a tablets e a outros produtos criados para serem fetiches. Grande parte daqueles livros não será lida, salvo os que pertencem aos adolescentes criados frente à TV, adestrados com vídeo-geimes, cuja fidelidade aos seus ídolos do molde do Harry Portter prevalecerá até que surja – incensados pela mídia – outro herói similar.
Esse tipo de estratégia, que visa impor a uma maioria um mesmo gosto, uma mesma atitude, um mesmo comportamento, fazendo o grosso das massas acreditarem que aquelas opções nasceram de seu “livre arbítrio”, foi desenvolvida pela equipe de Joseph Geobbels(28), empregada para impor, como esmagadora verdade popular, os pontos de vista dos nazistas ao povo alemão. Essa estratégia, que ganhou foros de ciência de comunicação de massas, chegou-se a elaborar uma fórmula, a Lei dos 7%, e hoje é usada como apanágio para o capitalismo democrático do mundo Ocidental, para vender mais.
Frente a essas pobres constatações, pode-se – repetindo – concluir que o Kitsch é algo inerente à sociedade de consumo, ou seja, o objetivo principal do processo de acumulação do capitalismo, uma fatalidade da qual nenhum de nós poderá fugir, uma vez que, para se produzir em grande escala, indispensável será um rigoroso método de estandardização, que terá que atingir todos os aspectos da vida humana. Não somente da vida material, mas da social e da psicológica. Em outras palavras, é preciso destruir a alma do ser, transformando ele próprio em um objeto. Objeto que consume. Ao chegar a essa conclusão, lembrei-me de que há uma bebida fermentada, também de origem alemã – aliás, muito saborosa – cujo nome é: “kirsch”, formando uma palavra quase homófona (e homônima) com Kitsch, uma vez que a única diferença na grafia e a substituição do ere pelo tê. Dessa forma resolvi tomar uma boa dose dela e aconselhar – em uma atitude bem ao espírito dessa matéria – as pessoas a não confundirem uma com a outra, ou seja, Kitsch com kirsch. Principalmente se beber essa última em excesso.
Ah! Não esqueça. Bebendo-a não dirija…
© Araken Vaz Galvão
Valença, BA, 6 de outubro de 2011