Archive for Junho, 2012

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CONGRESSO EDUCAÇÃO EM SP, CONVIDADO SILAS CORREA LEITE

Junho 29, 2012

Sarau de Poesia – Congresso Municipal de Educação
Convidado
Prof. Poeta Silas Corrêa Leite
Site pessoal:
http://www.itarare.com.br/silas.htm
E-mail direto: poesilas@terra.com.br
Escritor, Poeta e Ficcionista, Prêmio Lígia Fagundes Telles Para Professor Escritor
Autor de Porta-Lapsos, Poemas, 2005
Autor do e-book free “O Rinoceronte de Clarice”, no site
http://www.hotbook.com.br/int01scl.htm

Quando falo sobre poesia, começo com uma quadrinha:
“Eu sou pobre, pobre, pobre/De marré, marré, marré/Mas eu tenho a alma nobre/Pois eu sou de Itararé…”.
Sou de Itararé e sempre fui apaixonado por todas as minhas professoras! Aquele amor platônico. Fui bóia-fria, vendi sorvete, fui engraxate; vim para São Paulo, passei fome, ganhei ficha nos porões da ditadura, fiz Direito, passei anos na área e um dia fui fazer Geografia e descobri que era isso que eu queria ser: Professor!. Sempre escrevi, desde guri; como professor poeta agora, passei a escrever para vários sites, inclusive os que discutem a Educação, criticando a educação brasileira do ponto de vista do professor.
É fácil dizer: “Trabalho 80 horas por semana”. Onde? Num gabinete, ganhando 10.000,00 por mês! Realmente, é um grande sacrifício! Nós, que trabalhamos lá na ponta do ensino, ganhamos menos do que um terço desse valor, por isso estamos, como se diz, “ralando!”
O Prof. Dr. Pinotti, que me surpreendeu, em sua gestão, no trato da educação, disse: “Deve ser bom ser professor, se é poeta”. Eu respondi: “Sofre mais!”
O professor, como o poeta, carrega a realidade nacional. Você, na ponta da escola sente o que foi o plano econômico, sente o que foi o jogo de ontem, sente o que foi a migração, a imigração…
Tudo o que se planeja nos gabinetes, visto na ponta da escola, transforma-se em outra realidade: o aluno que não tem pai, que não tem mãe; as drogas, a impunidade – que é o grande mal deste país, pois tudo aparece na escola. E o aluno quer fazer justiça com as próprias mãos, porque a mãe foi morta, porque o pai está desempregado. E quem recebe o aluno assim? O professor.
E eu, como professor, vou escrevendo essas “acontecências” do dia-a-dia, e vou fazendo os meus poemas; e vou lançando os meus livros e assim vou dando o meu testemunho.
Vou começar este sarau lendo um micro-conto:
“Renatinha, ali na esquina da Praça 3 Poderes, pedindo ajuda, todo dia, numa ladainha pegajenta, sonha uma outra realidade: “-Moço, dá um tostão pro café?” Na tristice da viajosa realidade, Renatinha podia dizer: “-Moço, dá uma esmola pra eu cheirar cola?” Não, Renatinha, coitada, mal sabe que pode morrer a qualquer momento – uma bala perdida. Então, a coitadinha sonha um novo céu e uma nova terra e, do fundo do seu coração triste, pensa em parar o cidadão de terno e gravata e dizer: “-Ser humano, me dá um abraço?”

A questão, agora, do professor:
“Que espécie de professores somos? Que espécies de alunos queremos? – Ou vice-versa: O que somos como alunos?”
Vocês já se viram em cada sala de aula, no antigo primário, no ginásio, no colégio, na faculdade? Você era quietinho, você era santinho? Você estava numa “cela de aula” ou você pintava e bordava, como faz como professor? Infelizmente ou felizmente, a criança não vai deixar de ser criança porque é aluno. E a poesia pergunta: “-Que aula deve ser arquitetada para essa criança-ser-humano?”
Coloque-se no lugar da criança e diga: “Eu quero uma aula que tenha teatro, música, poesia, balé, história em quadrinhos, gibis”. Mas, no ensino fundamental? No ensino fundamental sim! Mas, no ensino médio? No ensino médio sim!
Eu dou aula no ensino fundamental e médio, e começo uma história em quadrinhos. Eu faço o balão, faço os versos rimados e, se bobear, ainda canto um Rap meu para os alunos. “Professor, o senhor dá Geografia?” Sim!. Qual é a coisa mais importante do planeta Terra? -O ser humano. Nós modificamos o espaço, nós fazemos o espaço e nós temos esse espaço.
A poesia do professor termina assim:
“Faça a chamada do seu coração.
Use a tarjeta da boa vontade.
E pense, sendo o professor, o que você faria se estivesse ali, sendo aluno?.

Você gostaria da aula que está dando?”

Essa é a questão. Uma vez, numa palestra, perguntaram porque sou professor. Pensei em escrever um texto. E escrevi. E o texto diz:
“Sou professor porque amo a vida, amo as pessoas, amo servir e trocar conflitos e esperanças.
Sou professor porque creio na fé, creio no conhecimento, creio no amor.
O amor move moinhos, montanhas e é para dentro do coração que se produz uma aula.
Sou professor porque sei que pássaro que pode voar mais longe tem que partir primeiro.
Sou professor porque acredito na distribuição do pão e da água além da vontade de viver intensamente.
Sou professor porque confio na produção do conhecimento e da pesquisa.
Sou o professor porque a alma da ciência é perseverança.
Sou professor porque a palavra é doce, o livro é estandarte e a troca de bagagem é um elo de exaltação à vida.
Sou professor porque sempre me encontro comigo mesmo em sala de aula.
Sou professor porque lecionar é da lavra do humanismo.
Sou professor porque acredito na vida e dar aulas é oferecer a mão estendida dizendo para o aluno: ‘Venha, venha…Vamos comigo para o futuro!.’
Sou professor porque, realmente, a docência é missão, é dádiva, é semeadura de tantas estradas que vão dar na alma humana.
Sou professor porque faço parte da orquestra dos sensíveis.
Sou professor porque me respeito e gosto de fazer o que faço.
Sou professor porque descobri a fórmula de dar aula: Eu inspiro o aluno e o aluno inspirado vai receptar melhor minha didática, meu conteúdo, minha teoria.
Sou professor também porque ser professor é a minha melhor melodia.
Enfim, sou professor porque acredito no amor e sei que, como diz o poeta, “Toda madeira, quando tocada vira flauta” e o aluno é a madeira que vou fazer um ser cidadão, cheio de luz, cheio de amor.

Por isso, sou professor”.

A cada dia que volta para casa, o professor precisa ter a sensação do chamado “dever cumprido”. A propósito dessa idéia, escrevi um poema que está no site “Ao Mestre com Carinho” (procurando num buscador da web “Silas Corrêa Leite” há mais de trezentos sites com trabalhos de minha autoria, sempre sob a ótica do professor e, às vezes até criticando a ótica rasa do acadêmico):

“Levanto-me todo dia para ir trabalhar
Mas já sabendo que estarei dividido
O péssimo salário, a condução, o lugar
Além da desesperança, do sonho perdido

Mas sigo em frente, buscando me encontrar
Com a alma tristonha e o coração partido
Não tenho casa, talvez nem tenha um lar
Só Deus sabe o quanto eu tenho sofrido

Cada sonho, cada busca é um pesar
Que abala o meu espírito oprimido
Mas, mesmo assim, eu tenho que lecionar
E encorajar sonhos; tristezas, não divido

E quando, à noite, chega a hora de voltar
Tenho que estar consciente e é o que tenho sido
Porque bem tarde, na hora de descansar
Tenho que ter a certeza do dever cumprido!.”

O poema ilustra muito bem o dia a dia do professor, sob a ótica daquele que precisa sobreviver, e vemos, na escola, professores que vendem Avon, salgadinhos, livros, tupperware; todos vendendo tantas coisas para complementar o salário e, no fim do mês, pagarem as contas que os 2 ou 3 salários das 2 ou 3 escolas já não pagam…
Há a questão da mídia: quando a mídia critica o professor, faz isso sem provas. E quando o professor ganha a ação na Justiça ou mostra ter estado certo, a mídia não noticia; ignora. A mídia neoliberal está contra a educação pública?. O professor deveria estar ganhando 50% a mais na Prefeitura e a 150% mais no Estado.
Não abordo essas questões na classe, claro, porque aquele é o lugar de aula e eu faço meu trabalho honradamente. Mas, nos fóruns de discussão, nos sindicatos, sou palavra forte e não tenho medo, porque estamos numa democracia. Quando me pedem conselhos, digo que o professor deve procurar seus direitos, fazer boletim de ocorrência, procurar um advogado. Quando o professor é agredido na escola, acabou a hierarquia. Não há prefeito, governador, presidente ou secretário da Educação, neste caso, porque o direito privado, pessoal está acima disso tudo, até do próprio estatuto ou regimento.
Voltando à poesia: é difícil falar de poesia e Cazuza dizia muito bem: “Enquanto houver burguesia/Não vai haver poesia”.
Eu digo: “Enquanto houver poesia ainda há de haver esperança…”.
O professor é, sim, aquele que muda a história. Mas o professor está organizado? Vemos paralisações de professores em que poderia haver 200.000 professores e há 500. Por quê? Porque o professor não está conscientizado.
Escrevo desde os 8 anos e fui descoberto por uma professora dentro da sala de aula. Aos 16 anos escrevia para o jornal da cidade, sempre estudando e admirando os professores e a educação como um todo. Digo que, depois do pai e da mãe, a pessoa mais importante da vida do aluno é o professor. Se o aluno não tiver consciência de que a pessoa mais importante na vida dele é o professor, fica muito difícil.
É preciso discutir o dia-a-dia do professor. Discute-se muito nos fóruns, mas não o dia-a-dia do professor.
Mais uma poesia:
“O telefone toca e eu fico ligado/Preocupado, assustado/Em casa não tem telefone/E eu sou só mais um número errado”.
Às vezes estou escrevendo a matéria e vem a idéia da poesia. Estou escrevendo, encho a lousa, abro o caderno, leio os textos e vem uma poesia assim: “Pedagogia/O giz do professor feliz/Assobia”. Eu paro o texto que estou criando ali, fecho o parágrafo, faço um quadrinho no meio da matéria e coloco a poesia.
A poesia de encerramento: “Pra que tanto celular/Com tanta falta do que falar?”.
Perguntam-me quando aparece a idéia. Às vezes, estou no ônibus lotado e ouço alguém falar: “Estamos todos sozinhos”. Essa frase inspira-me e surge a poesia. Chego em casa e faço o poema:

“Estamos todos sozinhos
Além do que percebemos.
Somos sempre tão mesquinhos
Quem sabe até merecemos.
Estamos todos sozinhos
Basta olhar para nós mesmos”.

Alguns dias após ter escrito esse poema, Cazuza faleceu. Compus um rock (fiz a música) com essa mesma letra. Expliquei isso aos alunos e sugeri que eles cantassem em sala de aula. Eles dizem que sou louco, mas prestam atenção, se interessam por todas as aulas. Louco?
Ser professor não é fácil e ser poeta é mais difícil ainda, porque você sente a dor do outro, tem problemas. Porque você vê que o aluno pode não ter futuro, ou aquele aluno está condenado, ou aquele ser humano pode não ir longe. Isso dói porque você possui intuição, percepção.
O professor tenta resgatar o aluno. Consegue?
Nem sempre, mas vai fazer sempre o impossível.

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Silas Corrêa Leite

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