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QUEM VAI NOS ESPERAR NO CÉU?

Dezembro 12, 2008

cavalosselvagnstres

Quem Vai Nos Esperar No Céu?

 

“Nada é grande na terra, a não ser o próprio Ser Humano/Nada

é grande no Ser Humano, a não ser a mente e a alma…“

 

(Sábio Italiano Pico Della Mirandola)

 

Para a Jornalista Maria Lydia (Rádio Bandeirantes)

 

-Se morrermos amanhã de manhã, ou num domingo de sol de primavera, quem vai nos esperar no céu? Certamente as pessoas que amamos aqui e que partiram primeiro, lá estarão nos esperando, para nos ajudar na passagem, na travessia…desde o momento mais difícil de romper com o cordão dessa dimensão inferior, até mudarmos de lado e então finalmente respirarmos luz terreal.

 

-Quem vai nos esperar no céu? O querido e saudoso pai, com seus longos braços cor de leite, seu chapéu verde de feltro com peninha vermelha, sua bengala de ossos e memórias, sua acordeona vermelha, seu olhar que de manhã era de uma cor e à tardinha na Estância Boêmia de Itararé era de outra. Sim, lá estará seu pai lhe esperando. Na Casa do Pai há muitas moradas?

 

-Quem vai nos esperar no céu? Tia Aurora, Dona Esperança, Seu Silêncio, Seu Zé Infinito, A Vó das Santerias, Dona Sofia com seu manjar de manga-sapatinho, São Pedro Guerreiro Vencendo o Dragão da Maldade, Lázaro Ressuscitado duas vezes, Joca Bentinho, o Filho da Luz, O Totonho Neto da Alma, A pobre Ama do Coração Vermelho, os Primos das Serenatas, O Vendedor de Picolé de Limão, O Entregador de Lágrimas, O Anjo Rosa que fazia Bala Juquinha, sim, as pessoas que amamos, e que nos amaram, nos esperarão no reino dos céus? Está escrito nas estrelas isso?

 

-Quem vai nos esperar no céu? Particularmente até fiz uma interessante trovinha rápida a respeito:

 

“Quando eu finalmente me for/Quem vai me esperar no céu?/O meu saudoso Pai Antenor/ De terno, bengala e chapéu?

 

-Quem vai nos esperar no céu? Com certeza todos aqueles a quem estendemos as mãos – ama a teu próximo como a ti mesmo – os que provemos, aqueles que ajudamos na nossa peregrinação, quer usando as sandálias da humildade, quer simplesmente dividindo água, sal, vinagre, força física, pão e peixe. Será possível isso, meus irmãos de buscas e sonhos?

 

-Quem vai nos esperar no céu? Sim, porque um dia iremos atrás de nossos próprios passos, marchando o retorno em busca de nossos ancestrais, rumo ao começo infinito da vida nesse plano astral. Quem éramos, Somos? O que seremos, já fomos um dia? Quem somos nós? Que espécie já fomos há zilhões de anos-luz? Sim, porque o brilho de uma estrela que vemos, é apenas luz de uma enorme e que já se apagou faz muito tempo. Faz sentido isso. O que isso quer dizer, irmãos?

 

-Quem vai nos esperar no céu? Conheceremos a lenda do Relojoeiro que toma conta do tempo na supercorda do infinito cosmo sideral? E do cachorro com asas que vigia os ladrões da noite eterna?  Fomos amigos da toupeira nariz-de-estrela e do ornitorrinco azul-xadrez que vigia as almas encantadas? Pois é. Pode ser. Semeia e confia. Há um Deus!

 

-Quem vai nos esperar no céu? No céu tem laranja-pêra, aroma de eucalipto silvestre, rio de pedras que rolam, gatos de três cabeças, Corinthians Fiel, Bailes de Jazz, bolas de futebol? Conheceremos então a falácia do mundo supersimétrico? Compreenderemos o incompreensível, e sorriremos, porque tudo era tão óbvio e não sacamos nada, porque, afinal, com a evolução da espécie espiritualmente involuímos e deixamos de ser puros, quando só há pureza na lucidez da fé. Crer para ver.

 

-Quem vai nos esperar no céu? Uma mão estendida? Um único olhar cândido com perolágrimas? Uma voz de trombone-contrabaixo dizendo “você esqueceu o mais importante, filho, vai ter que voltar para ser Zen”, ou, todos os teus antepassados e conterrâneos que partiram antes, dizendo, “-Sê bem-vindo, seu ciclo lá acabou, agora podemos continuar a trilha celeste em busca das framboesas sagradas de Deus?…”

 

-Quem vai nos esperar no céu? Quando você nasceu, um anjo gauche lhe disse do preço a pagar aqui dessa zona de abandonos; sua mãe lhe cultivou como uma pobre flor enferma; sua família lhe aceitou apenas como uma ocasional escora de percurso; você foi amargo e doce, humanamente foi bom e ruim; a palavra cirurgicamente ferina, o coração do tamanho de um bonde, mas, a carruagem de abóboras do tempo – na meia-noite de um crepúsculo pessoal – já foi dita. (Talvez logo serás recolhido. Foste avisado pela dor instintal?. Todas as portas se abrirão pela dor da carne que é fraca.)

 

 

-Quem vai nos esperar no céu? Amigos de utopias que choraram nos nossos ombros? Sobrinhas de sangue que dormiram no seu colo fraterno?Amores tecnicamente impossíveis que perderam a trilha da encruzilhada do destino? Filhos que não fizemos e que por si mesmos se fazem? Sobrinhas pelos quais carregaríamos um trem noturno? Irmãs que foram arear as nódoas nas panelas cósmicas de nossos descaminhos de guerreiros do fogo?

 

-(Minha mãe pela qual eu daria a minha vida? Meus ídolos que morreram de overdose? Santo Deus! – Quando eu era uma criança sonhadora, quase apenas uma folha de cheque em branco ainda, um Rei jovial da minha juventude de pobre cantava que nos daria o Céu, mas, depois queria que tudo mais fosse pro inferno, e agora canta para Jesus Cristo que ele está aqui. Tábua de esmeraldas ou de tantos paradoxos? Quem éramos naquelas campos de lavanda dos sonhos?)

 

-Quem vai nos esperar no céu? Omelete de lágrimas, estrelas de açúcar cristal, e pétalas de girassóis silvestres, darão vida aos meus poemas?  Eu fui meus poemas, sim, eu os vivi como cada gomo de cada segmento triste do caminho de peregrino. De  lágrimas que tantos me deram eu fiz um rio caudaloso, onde naveguei o barco de minha sensibilidade-terçã. Não me achei em porto nenhum, por isso meu encantário-ninhal é a idílica Estância Boêmia de Itararé que eu amo tanto.

 

-Quem vai nos esperar no céu? O lobo e o cordeiro no mesmo pasto. As fontes de águas límpidas. Cântico dos cânticos entoado por todos os nossos mortos redivivos. Eles já nos deram algum sinal?. Tudo é adeus. Precisamos nos apressar e fazermos depressa o que viemos para fazer aqui, cumprir o prometido antes de nascermos de novo, do outro lado da vida, no bosque do folhudo e Supremo Anjo das Árvores.

 

-Quem vai nos esperar no céu, terá que nos receber com o nosso fardo de salmos novos, eu, por exemplo, com os meus livros imaginários, com minhas baladas de pescador de pérolas sem lenço e sem documento; com os andaimes de minhas esperanças perdidas; com minhas ilusões de jacintos cortados, com meus fantasmas pegajentas, com minhas máscaras de prelúdios, meus pelicanos e minhas papoulas íntimas…

 

-Quem for nos esperar no céu, seja quem for na ocasião do rompimento, simplesmente catará os meus restos com uma pá feita de rejeitos de ostras náuticas, depois terá que me plantar num desjardim do desmundo lirial, então, finalmente e para sempre,  todas as minhas lágrimas se secarão, todas as minhas feridas se curarão como se num milagre do astral, e eu, finalmente serei então, o que não consegui ser aqui:

 

Um pessegueiro florido!.

 

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-Que Deus me perdoe, Mãe. Eu me perdi de mim mesmo nessa Zona Morta. Mas, acredito fielmente que, sim, alguém há de nos esperar no céu, alguém há de me esperar no CÉU.

 

Eu estarei nos braços de um anjo?

 

-0-

 

 

Silas Corrêa Leite – Texto da Série “Pensagens em Trânsito Neural”

Estância Boemia de Itararé-São Paulo-Brasil

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