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Sessenta Anos do Literato e Cyber Poeta Silas Correa Leite em 19.08.12

Agosto 13, 2012

Aniversário do Poetinha Silas Correa Leite – Sessenta Anos em 19.08.12

 

 

 

No dia 19 de Agosto de 2012, completa-se 60 anos da vinda do Poetinha Silas Correa Leite a este mundo, ao Planeta Itararé, aquele que mais cantou Itararé em verso e prosa, filho querido da Dona Eugênia de Oliveira Correa Leite e do Maestro Antenor Correa Leite,  hoje nome de rua em Itararé. Silas, guri de tudo, ajudando a familia, começou a trabalhar, de engraxate, vendedor de picolés do Bar do Dico, foi boia-fria, garçom do Bar do Calixtrato, e meio-oficial de Marceneiro na Marcenaria Estrela de Paulo Jurandir Leite da Silva. Ainda na marcenaria, precoce escrevia e desenhava em pedaços de compensados e de madeiras. No bar do Calixtrato, escrevia poemas e colava nas estufas quentes de encapotados de frango. Começou a escrever para o Guarani em 1968, com 16 anos, junto com Pedro Ribeiro Pinto, Mario Padial Chaves, Delio Simões, Lucas Ferreira, Edson Melilo (já falecido), ao lado de Hermínio Lages (in memoriam), Marcos Chunda e outros. Com a mesma idade foi aprovado (segundo lugar) num concurso de locutores da Rádio Clube de Itararé (gestão Helio Porto a quem Silas admira e diz, “O Hélio tem um espírito de guerreiro, uma mente brilhante e um coração de ouro; me ajudou muito”), também, nos shows prata da casa, no Cine São José, entre paródias que criava, imitava ídolos da Jovem Guarda, como Roberto Carlos, Antonio Marcos, Jerry Adriane, Moacir Franco e Wanderlei Cardoso, ou mesmo Fiore Gigliote, Rivelino, Juca Chaves. Chegou a ser premiado num evento (Pedro Pinto fazia parte do júri), quando improvisou um texto sobre o Natal (noticias tristes do mundo com a Guerra do Vietnã) com o guitarrista Izzo Ferraz solando ao fundo “Noite de Paz..Noite de Amor…”. Foi um  sucesso. Foi muito aplaudido. De familia humilde, arrimo de familia desde cedo, migrou para São Paulo em 1970 com apenas a quarta-série de curso primário do G.E.T.T. Grupo Escolar Tomé Teixeira.  Passou fome, morou em pensões, trabalhou na empresa Rodoviário em Itararé de João Wiederin que o ajudou, voltou a estudar, sempre escrevendo. Fez Direito, ganhou ficha no DOPS, perdeu emprego, perdeu o pai, colocando sua saudade de Itararé, suas tristezas, em cadernos de rascunhos poéticos, que hoje beiram mil e já foram mostrados na entrevista que deu anos atrás ao Metrópolis da TV Cultura, quando lançou O Rinoceronte de Clarice, primeiro livro interativo da Rede Mundial de Computadores (onze contos, cada conto com três finais), que foi destaque na mídia em reportagens (Revista Época, JT, Estadão), entrevista (Diario Popular, Caderno de Informática)s, também no Programa da Noite (Márcia Peltier, TV Band), Provocações (Antonio Abujamra/TV Cultura) entre outros, e acabou virando tese de mestrado e depois de doutorado em semiótica na UFAL-Universidade Federal de Alagoas, por ser pioneiro, único no gênero, de vanguarda com uma inteiração virtual das infovias. Silas foi homenageado no Centenário de Itararé, quando fez a exposição “Imagens e Palavras” no Centro Cultural, seu bonito e ufanista Hino ao Itarareense foi oficializado, participou de antologias literárias importantes até internacionais, lançou outros livros como Porta-Lapsos, Poemas, Editora All-Print e Campo de Trigo Com Corvos, Contos (a maioria premiados), finalista do Prêmio Telecom Portugal. Fez também Geografia, entres de outros cursos, inclusive é diplomado Conselheiro em Direitos Humanos. Ganhou vários prêmios de renome, o último na Bahia, que resultou no seu próximo livro, O Homem Que Virou Cerveja, Crônicas Hilárias de Um Poeta Boêmio, Giz Editorial, SP. Quantas pessoas o Silas homenageou na sua Galeria Nobre, publicando também na Tribuna de Itararé (nos áureos tempos do Jornalista João Contieri que adorava o Silas), e mesmo no jornal O Guarani onde Silas começou, tem amigos, fez escola e carreira. Esse apanhado histórico, do Silas Correa Leite “Leão do Centenário” como Jorge Chuéri, Walter Menk, Negrão, Tico e outros que ele admira e foram seus referenciais, é uma maneira de darmos parabéns ao Silas, porque está em quase 800 sites na Internet falando de uma Santa Itararé das Letras que ele adora tanto, deu entrevista ao Antonio Abujamra na TV Cultura de São Paulo, falou do seu ídolo e mestre, Jorge Chueri, e toda sua obra de Literato expressa seu imenso amor por Itararé, suas louvações a terra-mãe, demonstrando seu espírito altivo, humanista, seu alto astral de boêmio com resiliência e bom humor, ao lado de sua musa e companheira Rosangela Silva que ele diz que foi um anjo que Deus colocou em sua vida. Esperamos que o Silas viva  muitos anos, porque Itararé tem orgulho dele, ele, aluno da Professora Jocelina de Oliveira Stachoviach (“o primeiro anjo que Deus colocou em minha vida de guri pobre”, diz ele emocionado), certamente aprendeu as lições dos poetas: Viver é Lutar!. Site do Silas: www.itarare.com.br – E-mail: poesilas@terra.com.br – Blog premiado do UOL em 2008 e 2009: www.portas-lapsos.zip.net – Seus livros estão a venda nas bancas de jornais da cidade. Ele idealizou e coordenou junto com a escritora Maria Apparecida Coquemala a Primeira Antologia de Prosa de Itararé, que foi um sucesso. Deve lançar um novo romance em breve, e teve um novo livro de poemas aprovado por uma editora do Rio de Janeiro, e também teve seu romance CAVALOS SELVAGENS aprovado pela editora LetraSelvagem, a ser lançado o ano que vem. Outro site do Poetinha: WWW.itarare.com.br/silas.htm. Veja-o também no: www.artistasdeitarare.blogspot.com/

 

 

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CONGRESSO EDUCAÇÃO EM SP, CONVIDADO SILAS CORREA LEITE

Junho 29, 2012

Sarau de Poesia – Congresso Municipal de Educação
Convidado
Prof. Poeta Silas Corrêa Leite
Site pessoal:
http://www.itarare.com.br/silas.htm
E-mail direto: poesilas@terra.com.br
Escritor, Poeta e Ficcionista, Prêmio Lígia Fagundes Telles Para Professor Escritor
Autor de Porta-Lapsos, Poemas, 2005
Autor do e-book free “O Rinoceronte de Clarice”, no site
http://www.hotbook.com.br/int01scl.htm

Quando falo sobre poesia, começo com uma quadrinha:
“Eu sou pobre, pobre, pobre/De marré, marré, marré/Mas eu tenho a alma nobre/Pois eu sou de Itararé…”.
Sou de Itararé e sempre fui apaixonado por todas as minhas professoras! Aquele amor platônico. Fui bóia-fria, vendi sorvete, fui engraxate; vim para São Paulo, passei fome, ganhei ficha nos porões da ditadura, fiz Direito, passei anos na área e um dia fui fazer Geografia e descobri que era isso que eu queria ser: Professor!. Sempre escrevi, desde guri; como professor poeta agora, passei a escrever para vários sites, inclusive os que discutem a Educação, criticando a educação brasileira do ponto de vista do professor.
É fácil dizer: “Trabalho 80 horas por semana”. Onde? Num gabinete, ganhando 10.000,00 por mês! Realmente, é um grande sacrifício! Nós, que trabalhamos lá na ponta do ensino, ganhamos menos do que um terço desse valor, por isso estamos, como se diz, “ralando!”
O Prof. Dr. Pinotti, que me surpreendeu, em sua gestão, no trato da educação, disse: “Deve ser bom ser professor, se é poeta”. Eu respondi: “Sofre mais!”
O professor, como o poeta, carrega a realidade nacional. Você, na ponta da escola sente o que foi o plano econômico, sente o que foi o jogo de ontem, sente o que foi a migração, a imigração…
Tudo o que se planeja nos gabinetes, visto na ponta da escola, transforma-se em outra realidade: o aluno que não tem pai, que não tem mãe; as drogas, a impunidade – que é o grande mal deste país, pois tudo aparece na escola. E o aluno quer fazer justiça com as próprias mãos, porque a mãe foi morta, porque o pai está desempregado. E quem recebe o aluno assim? O professor.
E eu, como professor, vou escrevendo essas “acontecências” do dia-a-dia, e vou fazendo os meus poemas; e vou lançando os meus livros e assim vou dando o meu testemunho.
Vou começar este sarau lendo um micro-conto:
“Renatinha, ali na esquina da Praça 3 Poderes, pedindo ajuda, todo dia, numa ladainha pegajenta, sonha uma outra realidade: “-Moço, dá um tostão pro café?” Na tristice da viajosa realidade, Renatinha podia dizer: “-Moço, dá uma esmola pra eu cheirar cola?” Não, Renatinha, coitada, mal sabe que pode morrer a qualquer momento – uma bala perdida. Então, a coitadinha sonha um novo céu e uma nova terra e, do fundo do seu coração triste, pensa em parar o cidadão de terno e gravata e dizer: “-Ser humano, me dá um abraço?”

A questão, agora, do professor:
“Que espécie de professores somos? Que espécies de alunos queremos? – Ou vice-versa: O que somos como alunos?”
Vocês já se viram em cada sala de aula, no antigo primário, no ginásio, no colégio, na faculdade? Você era quietinho, você era santinho? Você estava numa “cela de aula” ou você pintava e bordava, como faz como professor? Infelizmente ou felizmente, a criança não vai deixar de ser criança porque é aluno. E a poesia pergunta: “-Que aula deve ser arquitetada para essa criança-ser-humano?”
Coloque-se no lugar da criança e diga: “Eu quero uma aula que tenha teatro, música, poesia, balé, história em quadrinhos, gibis”. Mas, no ensino fundamental? No ensino fundamental sim! Mas, no ensino médio? No ensino médio sim!
Eu dou aula no ensino fundamental e médio, e começo uma história em quadrinhos. Eu faço o balão, faço os versos rimados e, se bobear, ainda canto um Rap meu para os alunos. “Professor, o senhor dá Geografia?” Sim!. Qual é a coisa mais importante do planeta Terra? -O ser humano. Nós modificamos o espaço, nós fazemos o espaço e nós temos esse espaço.
A poesia do professor termina assim:
“Faça a chamada do seu coração.
Use a tarjeta da boa vontade.
E pense, sendo o professor, o que você faria se estivesse ali, sendo aluno?.

Você gostaria da aula que está dando?”

Essa é a questão. Uma vez, numa palestra, perguntaram porque sou professor. Pensei em escrever um texto. E escrevi. E o texto diz:
“Sou professor porque amo a vida, amo as pessoas, amo servir e trocar conflitos e esperanças.
Sou professor porque creio na fé, creio no conhecimento, creio no amor.
O amor move moinhos, montanhas e é para dentro do coração que se produz uma aula.
Sou professor porque sei que pássaro que pode voar mais longe tem que partir primeiro.
Sou professor porque acredito na distribuição do pão e da água além da vontade de viver intensamente.
Sou professor porque confio na produção do conhecimento e da pesquisa.
Sou o professor porque a alma da ciência é perseverança.
Sou professor porque a palavra é doce, o livro é estandarte e a troca de bagagem é um elo de exaltação à vida.
Sou professor porque sempre me encontro comigo mesmo em sala de aula.
Sou professor porque lecionar é da lavra do humanismo.
Sou professor porque acredito na vida e dar aulas é oferecer a mão estendida dizendo para o aluno: ‘Venha, venha…Vamos comigo para o futuro!.’
Sou professor porque, realmente, a docência é missão, é dádiva, é semeadura de tantas estradas que vão dar na alma humana.
Sou professor porque faço parte da orquestra dos sensíveis.
Sou professor porque me respeito e gosto de fazer o que faço.
Sou professor porque descobri a fórmula de dar aula: Eu inspiro o aluno e o aluno inspirado vai receptar melhor minha didática, meu conteúdo, minha teoria.
Sou professor também porque ser professor é a minha melhor melodia.
Enfim, sou professor porque acredito no amor e sei que, como diz o poeta, “Toda madeira, quando tocada vira flauta” e o aluno é a madeira que vou fazer um ser cidadão, cheio de luz, cheio de amor.

Por isso, sou professor”.

A cada dia que volta para casa, o professor precisa ter a sensação do chamado “dever cumprido”. A propósito dessa idéia, escrevi um poema que está no site “Ao Mestre com Carinho” (procurando num buscador da web “Silas Corrêa Leite” há mais de trezentos sites com trabalhos de minha autoria, sempre sob a ótica do professor e, às vezes até criticando a ótica rasa do acadêmico):

“Levanto-me todo dia para ir trabalhar
Mas já sabendo que estarei dividido
O péssimo salário, a condução, o lugar
Além da desesperança, do sonho perdido

Mas sigo em frente, buscando me encontrar
Com a alma tristonha e o coração partido
Não tenho casa, talvez nem tenha um lar
Só Deus sabe o quanto eu tenho sofrido

Cada sonho, cada busca é um pesar
Que abala o meu espírito oprimido
Mas, mesmo assim, eu tenho que lecionar
E encorajar sonhos; tristezas, não divido

E quando, à noite, chega a hora de voltar
Tenho que estar consciente e é o que tenho sido
Porque bem tarde, na hora de descansar
Tenho que ter a certeza do dever cumprido!.”

O poema ilustra muito bem o dia a dia do professor, sob a ótica daquele que precisa sobreviver, e vemos, na escola, professores que vendem Avon, salgadinhos, livros, tupperware; todos vendendo tantas coisas para complementar o salário e, no fim do mês, pagarem as contas que os 2 ou 3 salários das 2 ou 3 escolas já não pagam…
Há a questão da mídia: quando a mídia critica o professor, faz isso sem provas. E quando o professor ganha a ação na Justiça ou mostra ter estado certo, a mídia não noticia; ignora. A mídia neoliberal está contra a educação pública?. O professor deveria estar ganhando 50% a mais na Prefeitura e a 150% mais no Estado.
Não abordo essas questões na classe, claro, porque aquele é o lugar de aula e eu faço meu trabalho honradamente. Mas, nos fóruns de discussão, nos sindicatos, sou palavra forte e não tenho medo, porque estamos numa democracia. Quando me pedem conselhos, digo que o professor deve procurar seus direitos, fazer boletim de ocorrência, procurar um advogado. Quando o professor é agredido na escola, acabou a hierarquia. Não há prefeito, governador, presidente ou secretário da Educação, neste caso, porque o direito privado, pessoal está acima disso tudo, até do próprio estatuto ou regimento.
Voltando à poesia: é difícil falar de poesia e Cazuza dizia muito bem: “Enquanto houver burguesia/Não vai haver poesia”.
Eu digo: “Enquanto houver poesia ainda há de haver esperança…”.
O professor é, sim, aquele que muda a história. Mas o professor está organizado? Vemos paralisações de professores em que poderia haver 200.000 professores e há 500. Por quê? Porque o professor não está conscientizado.
Escrevo desde os 8 anos e fui descoberto por uma professora dentro da sala de aula. Aos 16 anos escrevia para o jornal da cidade, sempre estudando e admirando os professores e a educação como um todo. Digo que, depois do pai e da mãe, a pessoa mais importante da vida do aluno é o professor. Se o aluno não tiver consciência de que a pessoa mais importante na vida dele é o professor, fica muito difícil.
É preciso discutir o dia-a-dia do professor. Discute-se muito nos fóruns, mas não o dia-a-dia do professor.
Mais uma poesia:
“O telefone toca e eu fico ligado/Preocupado, assustado/Em casa não tem telefone/E eu sou só mais um número errado”.
Às vezes estou escrevendo a matéria e vem a idéia da poesia. Estou escrevendo, encho a lousa, abro o caderno, leio os textos e vem uma poesia assim: “Pedagogia/O giz do professor feliz/Assobia”. Eu paro o texto que estou criando ali, fecho o parágrafo, faço um quadrinho no meio da matéria e coloco a poesia.
A poesia de encerramento: “Pra que tanto celular/Com tanta falta do que falar?”.
Perguntam-me quando aparece a idéia. Às vezes, estou no ônibus lotado e ouço alguém falar: “Estamos todos sozinhos”. Essa frase inspira-me e surge a poesia. Chego em casa e faço o poema:

“Estamos todos sozinhos
Além do que percebemos.
Somos sempre tão mesquinhos
Quem sabe até merecemos.
Estamos todos sozinhos
Basta olhar para nós mesmos”.

Alguns dias após ter escrito esse poema, Cazuza faleceu. Compus um rock (fiz a música) com essa mesma letra. Expliquei isso aos alunos e sugeri que eles cantassem em sala de aula. Eles dizem que sou louco, mas prestam atenção, se interessam por todas as aulas. Louco?
Ser professor não é fácil e ser poeta é mais difícil ainda, porque você sente a dor do outro, tem problemas. Porque você vê que o aluno pode não ter futuro, ou aquele aluno está condenado, ou aquele ser humano pode não ir longe. Isso dói porque você possui intuição, percepção.
O professor tenta resgatar o aluno. Consegue?
Nem sempre, mas vai fazer sempre o impossível.

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Silas Corrêa Leite

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Estatuto de Poeta de Silas Correa Leite em Francês

Novembro 5, 2011

ESTATUTO DE POETA EM FRANCÊS
Edição Bílingue Português e Francês
Autor Silas Correa Leite, Estância Boêmia de Santa Itararé das Letras, São Paulo, Brasil – In, Porta-Lapsos, Poemas, All-Print Editora
Tradução para o idioma francês: JOSÉ BARBOSA LEITE
Artigo Um
Todo Poeta tem direito de ser feliz para sempre,
mesmo até muito além do para sempre, ou quando
eventualmente o “para sempre” tenha algum fim.
Artigo Dois
Todo Poeta poderá dividir sua loucura, paixão e
sensibilidade com mil amores, pois a todos realmente
amará com o mesmo prelúdio nos olhos, algumas asas
nas algibeiras e muitas cítaras encantadas na alma,
ainda assim, sem lenço e sem documento.

Statut de Poète (Premier Brouillon Pour un Croquis de Projet
Suffisant, Total et Sans quelque restriction)
Article Un
Tout Poète a droit d’être heureux pour toujours, même jusqu’à bien
au-delá de pour toujours, ou quand éventuellement la ” ; pour
toujours ” ; il ait quelque fin.
Article Deux
Tout Poète pourra diviser sa folie, passion et sensibilité avec mille
amours, donc à tous réellement il aimera avec le même prélude
dans les yeux, quelques ailes dans les poches et beaucoup de
cithares enchantées dans l’âme, encore ainsi, sans mouchoir et
sans document.
Parágrafo Único
Nenhum Poeta poderá ser traído, a não ser para que a
pobre ex-Musa seja infeliz para todo o resto dos dias
que lhe caibam na tábua de carne desse Planeta Água.
Artigo Três
Nenhum Poeta padecerá de fome, de tristeza ou de
solidão, até porque a tristeza é a identidade do Poeta,
a solidão a sua Pátria, sendo que, a fome pode muito
bem ser substituída num abismo terminal por rifle ou
cianureto. E depois, um poeta não precisa de solidão
para ser sozinho. É sozinho de si mesmo, pela própria
natureza, com seus encantários, santerias, ninhais,
mundo-sombra e baladas de incêndio.
Artigo Quatro
A Mãe do Poeta será o magno santuário terreal de seus
dias de lutas e sonhos contra moinhos e erranças de
gracezas e iluminuras.
Filho de Poeta será como caule ao vento, cálice de
liturgia, enchente em rio: deverá adaptar-se ao Pai
chamado de louco por falta de lucidez de comuns
mortais ou velado elogio em tácita inveja espúria.
Paragraphe Unique
Aucun Poète pourra être trahi, excepté pour que le pauvre ex-Musa
soit malheureux pour tout le reste des jours qui lui contiennent dans
la table panneau de viande de cette Planète de l’eau.
Article Trois
Aucun Poète souffrira de faim, de tristesse ou de solitude, même
parce que la tristesse est l’identité du Poète, la solitude sa Patrie, en
étant que, la faim peut très bien être substituée dans un abîme
terminal par fusil ou cyanure. Et ensuite, un poète non précis de
solitude pour être seul. C’est seul de lui même, par la nature elle-
même, avec leurs enchants, santerias, bers des oiseaux, brune-
monde et ballades d’incendie.
Article Quatre
La Mère du Poète sera le grand sanctuaire terreal de leurs jours de
luttes et rêves contre des moulins et grand erreurs de graces et
iluminures.
Fils de Poète sera mange tige au vent, calice de liturgie, inondation
dans fleuve : devra s’adapter au Père appel de fou faute de lucidité
de communs mortels ou veillé compliment dans tacite envie fausse
et spurie.

Artigo Quinto
Nenhum Poeta será maior que seu país, nenhuma
fronteira ou divisa haverá para o Poeta, pois sua
bandeira de luz-cor será a justiça social, pão, vinho,
maná, leite e mel, além de pétalas e salmos aos que
passaram em brancas nuvens pela vida. E depois, uns
são, uns não, uns vão, uns hão, uns grão, uns drão – e
ainda existem outros.
Artigo Sexto
A todo Poeta será dado pão, cerveja, amante e paixão
impossível, o que naturalmente o sustentará mental e
fisiológicamente em tempos tenebrosos ou de vacas
magras, de muito ouro e pouco pão.
Artigo Sétimo
Nenhum Poeta será preso, pois sempre existirá, se
defenderá e escreverá em legítima defesa da honra da
Legião Estrangeira do Abandono, à qual se sabe
pertencer, com seu butim de acontecências, ou seu
não-lugar de, criando, Ser, estar, permanecer,
continuar, feito uma letargia, um onirismo, uma
catarse, ou um surto psicótico que os anjos chamam
alumbramento terçã.

Article Cinquième
Aucun Poète sera plus grand que son pays, aucune frontière ou
devise aura pour le Poète, donc son drapeau de lumière-couleur
sera la justice sociale, le pain, le vin, la manne, le lait et le miel,
outre des pétales et des psaumes auxils lesquels ont passé dans de
blancs nuages par la vie. Et ensuite, ils sont, non, vont, uns ont, un
grain, une moulin – et ils encore existent autres.
Article Sixième
Pour tout les Poètes sera donné du pain, de la bière, en aimant et
de la passion impossible, ce qui naturellement le soutiendra mental
et physiologiquement dans des temps ténébreux ou de vaches
maigres, de beaucoup d’or et de peu de pain.
Article Septième
Aucun Poète sera prisonnier, donc toujours il existera, se défendra
et écrira dans légitime défense de l’honneur de la Légion Étrangère
de Abandonement, auquel il se sait appartenir, avec sien butim
d’acontecências, ou sa place de, en créant, Être, être plus um fois,
rester, continuer, fait une léthargie, une onirisme, une catharsis, ou
un foyer psychotique que les anges appellent Le tierce alumbrament
Artigo Oitavo
A infinital solidão do espaço sempre atrairá os Poetas.
Artigo Nono
Caso o Poeta “viaje fora do combinado”, tome licor de
ausência ou vá morar no sol, nunca será pranteado o
suficiente, nem lhe colocarão tulipas de néon, dálias
aurorais, estrelícias de leite ou dente-de-leão sob o
corpo que combateu o bom combate. Será servido às
carpideiras, amigos, parentes, anjonautas e guardiões,
vinho de boa safra por atacado, cerveja preta mais
bolinhos de arroz, pão de minuto e cuque de fubá
salgado.

Article Huitième À infinital solitude de l’espace toujours il attirera les
Poètes.
Article Neuvième
Cas le Poète ” ; il voyage excepté de combination”,qu’ il prenne de
la liqueur d’absence ou aille vivre dans le soleil, jamais ne sera pas
pleuré assez, ni lui ne placeront pas de tulipes de néon, lês dálies
de l’ aurore, estrelícies de lait ou pissenlit sous le corps qui a
combattu le bon combat. Il sera servi aux carpideirèes, à amis, à
parents, à des voyzgeurs d’espace et à gardiens, à vin de bonne
récolte en gros, à bière noire plus petits gâteaux de riz, à pain de
minute et cuque de fubá salée.

Artigo Décimo
Poeta não precisará mais do que o radar de seus olhos,
as suas mãos de artesão sensorial no traquejo do
cinzel interior, criativo, mais sua aura abençoada e seu
halo com tintas de luz timbral para despojar
polimentos íntimos em verso e prosa, como
pertencimentos-quireras, questionários e renúncias.
Artigo Décimo-Primeiro

Poeta poderá andar vestido como quiser, lutar contra
as misérias e mentiras do cotidiano (riquezas impunes,
lucros injustos, propriedades roubos), sempre
buscando pela paz social, ou ainda mamando na utopia
de uma justiça ético-plural-comunitária. Quem gosta
de revolução de boteco é janota boçal metido a
erudição alcoólica e pseudo-intelectual seboso e
burguês. Poeta gosta mesmo de humanismo de
resultados. De pegar no breu. A luta continua! Saravá,
Brecht!

Article Dixième
Poète dont n’aura besoin plus le radar de leurs yeux, leurs mains
d’artisan sensoriel dans la experience artesanal de cinzel intérieur,
créatif, plus leur dorée bénie et leur halo avec des encres de lumière
timbral pour dépouiller des polissages intimes dans vers et causent,
mange des pertenciments de rêve, questionnaires et résignations.
Article Onzième
Poète pourra marcher tenue comment vouloir, combattre les
misères et les mensonges du quotidien (richesses impunis, profits
injustes, propriétés vols), toujours en cherchant par la paix sociale,
ou encore téter dans l’utopie d’une justice étic-plural-comunitère.
Qui aime révolution fait em petit bar est un janote embout mis
l’erudição alcoolique et la pseudo intlectuèlle grasse de les le
bourgeois. Poète aime même l’ humanisme de vrai e eftives
résultats. De recueillir dans le brai. La lutte continue ! Saravá,
Brecht !

Artigo Décimo-Segundo
Poeta pode ser Professor, Torneiro-Mecânico,
Operário, Ourives, Jardineiro, Fabricante de Bonecas,
Vigia-Noturno, Engolidor de Fogo, Entregador de
Raposas, Dono de Bar ou Encantador de Freiras
Indecisas. Poeta só não poderá ser passional,
insensível, frio ou interesseiro. Ao poeta cabe apenas
o favo de Criar. O poeta escreve torto por linhas tortas
(um gauche), poesilhas (poesia rueira e descalça) e
ficção-angústia. Escreve (despoja-se) para não ficar
louco…para livrar do que sente. O Poeta, afinal, é um
“Sentidor” com sua angústia-vívere
Artigo Décimo-Terceiro
Se algum Poeta for acusado levianamente de alguma
eventual infração ou crime, a dúvida o livrará de ser
apenado. E se o Poeta dizer-se inocente isso superará
palavras acima de todos e sua fala será sentença e lei
sagracial. A ótica do Poeta está acima de qualquer
suspeita, e ele sempre é de per-si mesmo o local do
crime da viagem de existir. Mas pode colaborar com as
autoridades, cometendo um crime perfeito. Afinal, só
os imbecis são felizes.

Article Douzième
Poète peut être Enseignant, Tournièr – mécanique, Ouvrier, Orfèvre,
Jardinier, Fabricant de Poupées, guard dans La nuit, avaleteur de
feu,transporteur de renards, Propriétaire de Barre ou Charmeur
fascinateur de Soeurs Indecises. Poète ne pourra seulement pas
être passionnel, insensible, froid ou intéressé. Au poète contient
seulement l’alvéole De créer. Le poète écrit tors par des lignes des
tourtes (un gauche), poesilhas (poésie de las rues ouvertes et
déchausses et la ficcion – angustie. Il écrit (il se dépouille) pour que
ne soient pas fou… pour exempter dont il sent. Le Poète, après tout,
est une ” ; Sentidor” ; avec sien “angústia-vívere”
Article Treizième
Si quelque Poète soit accusé frivolement de quelque éventuelle
infraction ou de crime, le doute l’exemptera d’être puni. Et si le
Poète se dit innocent cela dépassera des mots au-dessus de tous et
sa parole sera jugement et loi sagracial. L’optique du Poète est au-
dessus de quelconque soupçonne, et il toujours est de per-si même
le lieu du crime du voyage de d’exister. Mais il peut collaborer avec
les autorités, en commettant un crime parfait. Après tout, seulement
les imbéciles sont heureux.
Parágrafo Único
Poeta não erra. Refaz percursos. Poeta não mente.
Inventa o inexistente, traduz o impossível, delata o
devir. Poeta não morre. Estréia no céu. Poeta padece
fibra por fibra no ser-se de si mesmo
Artigo Décimo-Quarto
Aos Poetas serão abertas todas as portas, até as
invisíveis aos olhos vesgos e comuns dos mortais
anônimos, serão abertos todos os olhos, todas as
almas, todos os caminhos, todas as chamas, todos os
cântaros de lágrimas e desejos, todos os segredos
dessa dimensão ou fora dela, num desespelho de
matizes, feito insofrência do desmundo.
Artigo Décimo-Quinto
A primeira flor da primeira aurora de cada dia novo,
será declarada de propriedade do Poeta da rua, do
bairro, do país ou de qualquer próximo Poeta a
confeitar como louco, como ermitão ou pioneiro, de
vanguarda. Em caso de naufrágio ou incêndio, poetas e
grávidas primeiro
Artigo Décimo-Sexto
Não existe Poeta moderno, clássico, quadrado,
matemático como pelotão de isolamento, ou só
aleijado por dentro, pois as flores e os rios não nascem
nunca iguais aos outros, sósias, nem os poemas são
tijolos formais de reboques arcaicos. Nenhum Poeta
poderá produzir só por estética, rima ou lucro fóssil.
Poesia não é para ser vendida, mas para ser dada de
graça. Um troco, um soneto, uma gorjeta, um haikai,
um fiado pago, uns versos brancos, um salário do
pecado, um mantra-banzo-blues-lundu. E todo
alumbramento é uma meia viagem pra Pasárgada.

Paragraphe unique
Poète ne manque pas. Il refait des parcours. Poète non esprit. Il
invente l’inexistant, traduit l’impossible, dénonce le devenir. Poète
ne meurt pas. Il étrenne dans le ciel. Poète souffre fibre par fibre
dans l’être de lui même
Article Quatorzième
Aux Poètes seront ouvertes toutes les portes, jusqu’aux invisibles
aux yeux louches et communs des mortels anonymes, seront
ouvertes tous les yeux, toutes les âmes, tous les chemins, toutes les
flammes, tous les cruches de larmes et les désirs, tous les secrets
de cette dimension ou excepté d’elle, dans une non reflexion de
nuances, de fait insondable de la nouvelle desfiguration Du monde.
Article Quinzième
Première fleur de première aube de chaque jour nouveau, sera
déclarée de propriété du Poète de la rue, du quartier, du pays ou de
tout proche Poète à confire comme fou, comme ermite ou pionnier,
d’avant-garde. Dans le cas de naufrage ou d’incendie, poètes et
femmes enceintes premier
Article Seizième
N’existe pas Poète moderne, classique, carré, mathématicien je
mange peloton d’isolement, ou seulement blessé en-dedans, donc
les fleurs et les fleuves né jamais égaux aux autres, à sosies, ni aux
poèmes sont des briques formelles de remorques archaïques.
Aucun Poète pourra produire seulement par esthétique, rime ou
gagne fossile. Poésie n’est pas pour être vendu, mais pour être
donnée de grâce. Un je change, un sonnet, un pourboire, une
haikai, une filure payé, des vers blancs, un salaire du péché, une
mantra-banzo-blues-lundu. Et toute alumbrament est un demi
Voyage piur Le règne de Pasárgada où Là Le poete c’est toujours
l’ami de le roi.
Poeta é tudo a mesma coisa, com maior ou menor grau
de sofrimento e lições de sabedoria dessas sofrências,
portanto, com carga maior ou menor de visão, lucidez,
sensoriedade canalizada entre o emocional e o
racional, de acordo com a sua bagagem, seu vivenciar,
seu prisma existencialista de bon vivant por atacado.
Poeta há entre os que pensam e os que pensam que
pensam. Entre os que são e os que pensam que são,
pois se parecem. A todos é dado a estrada de tijolos
amarelos para a empreita de uma caminhada que o
madurará paulatinamente. Ou não. Todo poeta é
aprendiz de si mesmo, em busca de uma pegada
íntima, e escreve para oxigenar a alma. Afinal, são
todos sementes, e sabem que precisam ser flores e
frutos, para recriarem, para sempre, a eterna
primavera cósmica.Todo aquele que se disser Poeta,
assim o será, ou assim haverá de ser
Parágrafo Um
O verdadeiro Poeta não acredita em Arte que não seja
Libertação. Saravá, Manuel Bandeira!
Parágrafo Dois

Poeta bebe porque é líquido. Se fosse sólido comia.
Parágrafo Três
Poeta é como a cana. Mesmo cortado, ralado,
amassado, ao ser posto na moenda dos dias, ainda
assim tem que dar açúcar-poesia
Inciso Um
Poeta também bebe para tornar as pessoas mais
interessantes.
Parágrafo quatro
Poeta não viaja. Poeta bebe. E todo Poeta sabe que o
fígado faz mal à bebida.
Artigo Décimo-Sétimo
Poeta terá que ser rueiro como pétala de cristal sacro,
frequentador de barzinhos como anjo notívago, freguês
de saunas mistas como recolhedor de essências,
plantador de trigais amarelos como iluminador de
cenários, cevador de canteiros entre casebres de
bosquíanos, entre o arado e a estrela, um arauto pós-
moderno como declamador de salmos contemporâneos
entre extraterrestres.
Parágrafo Único
Poeta rico deverá ainda mais amar o próximo como se
a si mesmo, ajudando os fracos e oprimidos, os Sem
Terra, Sem Teto, Sem Amor, para então se restar bem-
aventurado e poder escrever cânticos sobre a
condição humana no livro da vida. Poeta é antena da
época. E o neoholocausto do liberalismo globalizador é
o câncer que ergue e destrói coisas belas.

Poète est tout le même chose, avec plus grand ou moindre degré
de souffrance et de leçons de sagesse de ces soufriments, donc,
avec chargement plus grand ou moindre de vision, de lucidité,
sensorieté canalisée entre du émotionnel et rationnel,
conformément à ses bagages, sien vivre intensément, à son prisme
existencialiste de Bon vivant en gros. Poète a entre ils que pensent
et ce qui pensent ils que pensent. Entre ils que sont et ce qui
pensent ils que sont, donc ils se semblent. À tous est donnée route
de briques jaunes pour entreprend d’une randonnée que va maturer
progressivement. Ou non. Tout poète est apprenti de lui même, à la
recherche d’une empreinte de pas intimee, et écrit pour oxigenar
l’âme. Après tout elles, sont toutes semences, et savent ils qu’ont
besoin d’être des fleurs et des fruits, pour recréer, pour toujours,
l’éternel printemps cosmique. Quiconque se dire Poète, ainsi le
sera, ou ainsi il aura d’être Alinéa Un Le vrai Poète ne croit pas
dans Art qui n’est pas Libération. Saravá, Manuel Bandeira !
Alinéa Deux
Poète boit parce que c’est liquide. S’il était solide mangeait.
Alinéa Trois
Poète est comme la canne. Même coupé, râpé, malaxé, à l’être
grade dans la mouture des jours, encore ainsi il a qu’il donnera
sucre-poesie Incise Un Poète aussi boit pour rendre les personnes
le plus intéressant. Alinéa quatre Poète ne voyage pas. Poète boit.
Et tout Poète sait que le foie fait mal à la boisson.
Article Dix-septième
Poète aura qu’être homme de La rue je mange pétale de cristal
sacré, frequenteur de bars petits comme ange de La nuit, client de
saunas mélangés je mange recolheteur d’essences, planteur de
champs de blé jaunes mange illuminateur de scénarios, cevador de
marbriers entre des taudis de bosquíanos, entre la charrue et
l’étoile, un héraut pós-moderne je mange déclamateur de psaumes
contemporains entre des extraterrestres.
Alinéa Seul
Poète riche devra encore davantage aimer le proche comme si à lui
même, en aidant les faibles et opprimés, Sans Terre, Sans Plafond,
Sans Amour, pour que alors il se reste heureux et à pouvoir écrire
des cantiques sur la condition humaine dans le livre de la vie. Poète
est antenne du temps. Et la neoholocauste du libéralisme
globalizateur est le cancer qui érige et détruit des choses belles.
Artigo Décimo-Oitavo
A todo Poeta andarilho e peregrino como Cristo, São
Francisco ou Gandhi, será dado seu quinhão de afeto,
sua porção de Lar, seu travesseiro de pétalas de luz.
Quem negar candeia, azeite e abrigo ao Poeta, nunca
terá paz por séculos de gerações seguintes
abandonadas entre o abismo e a ponte para a Terra do
Nunca. Quem abrigar um Poeta, ganhará mais um anjo-
da-guarda no coração do clã que então será
abençoado até os fins dos tempos.
Parágrafo único
O sábio discute sabedoria com um outro sábio. Com
um humilde o sábio aprende.
Artigo Décimo-Nono
Poeta poderá andar vestido como quiser, com chapéus
de nuvens, pés de estrelas binárias ou mantras de
ninhos de borboletas. Nenhum Poeta será criticado por
fazer-se de louco pois os loucos herdarão a terra e são
enviados dos deuses. “Deus deve amar os
loucos/Criou-os tão poucos…” – Um Poeta poderá
também andar nu, pois assim viemos e assim nos
moldamos ao barro-olaria de nosso eio-Éden chamado
Planeta Água. E a estética para o poeta não significa
muito, somente o conteúdo é essência infinital.
Artigo Vigésimo
Poeta gosta de luxo também, mas deve lutar por uma
paz social, sabendo a real grandeza bela de ser
simples como vôo de pássaro, simples como pouso em
hangar fantástico, simples como beira de rio ou vão de
cerca de tabuínha verde. Só há pureza no simples.

Article Dix-huitième Le tout Poète andarile et pèlerin comme Christ,
San Francisco ou Gandhi, sera donné sa portion d’affection, sa
portion de Foyer, son oreiller de pétales de lumière. Qui nier
candelabre, huile et abri au Poète, jamais n’aura paix par des
siècles de générations suivantes non abandonnées entre l’abîme et
le pont pour la Terre de Jamais. Qui abriter un Poète, gagnera plus
une ange de guard dans le coeur du clan qui alors sera béni
jusqu’aux fins des temps. Alinéa seul Le savant discute de la
sagesse avec un autre savant. Avec un humble o sage il apprend.
Article Dix-neuvième
Poète pourra marcher tenue comment vouloir, avec des chapeaux
de nuages, de pieds d’étoiles binaires ou de mantras de nids de
papillons. Aucun Poète sera critiqué se faire de fou donc les fous
hériteront la terre et sont envoyés de . ” ; Dieu doit aimer les fous/A
créé les aussi peu… ” ; – Un Poète pourra aussi marcher nu, donc
nous sommes ainsi venus et ainsi dans nous les moulons à l’ argile-
poterie de nôtre eio-Éden appelé Planète de l’eau. Et l’esthétique
pour le poète ne signifie pas beaucoup de, seulement le contenu est
essence infinital.
Article Vingtième
Poète aime luxe aussi, mais il doit combattre pour une paix sociale,
en savoir la réelle grandeur belle d’être simple mange vol d’oiseau,
simple mange atterrissage dans hangar fantastique, simple je
mange côté de fleuve ou vont d’environ petit bois vert. Seulement il
y a pureté dans le simple.
Artigo Vigésimo-Primeiro
Nenhum Poeta, em tempo algum, por qualquer motivo
deverá ser convocado para qualquer batalha, luta ou
guerra. Mas poderá fazer revoluções sem violência.
Poderá também ser solicitado para ser arauto da paz,
enfermeiro de varizes da alma ou envernizador de
cicatrizes no coração, oferecendo, confidente e
solidário, um ombro amigo, um abraço de ternura, um
adeus escondido feito recolhedor de aprendizados ou
visitador de bençãos, ou até ser circunstancialmente
um rascunhador clandestino de alguma ridícula carta
de suicida por paixão se impôs
Artigo Vigésimo-Segundo
Mentira para o Poeta significa cruz certa. Aliás, poeta
na verdade nunca mente, só inventa verdades
tecnicamente inteiras e filosoficamente sistêmicas…
Artigo Vigésimo-Terceiro
Musa-Vítima do Poeta será enfermeira, psicóloga,
amante, mulher-bandeira, berço esplêndido, Santa.
Terá que ser acima de todas as convenções formais,
pau para toda obra. No amor e na dor, na alegria e na
tristeza, até num possível pacto de morte.
Artigo Vigésimo-Quarto
Poeta não paga pensão alimentícia. Ou se está com
ele ou contra ele. Filhotes sobrevivente de uma
relação qualquer, ficarão sob sua guarda direta e
imediata. Ex-Mulheres serão para sempre águas
passadas que não movem moinhos, como velas ao
vento de uma Nau Catarineta qualquer, como
exercícios de abstrações entre cismas, ou como
aprendizados de dezelos íntimos de quem procura
calma para se coçar.
Artigo Vigésimo-Quinto

Revogam-se todas as disposições em contrário,
CUMPRA-SE – DIVULGUE-SE!

Article vingt et unième
Aucun Poète, dans temps quelques-uns, pour une quelconque
raison devra être convoqué pour toute bataille, combat ou guerre.
Mais il pourra faire des révolutions sans violence. Il pourra aussi
être demandé pour être héraut de la paix, infirmier de varices de
l’âme ou envernizateur de cicatrices dans le coeur, en offrant, le
confident et solidaire, une épaule ami, une accolade de tendresse,
un au revoir caché fait recolheteur d’apprentissages ou un visiteur
de bénédictions, ou jusqu’à être circonstanciellement une copiste
clandestine de quelque ridicule lettre suicidaire par passion s’est
imposée
Article vingt deuxsième
Mensonge pour le Poète signifie croix exacte. D’ailleurs, poète en
vérité jamais esprit, seulement invente des vérités techniquement
entières et philosophiquement sistêmiques…
Article vingt troisième
Muse – victime du Poète sera infirmière, psychologue, en aimant,
femme-drapeau, berceau splendide, Saint. Il aura qu’être au-dessus
de toutes les conventions formelles, le bois pour toute oeuvre. Dans
l’amour et dans la douleur, dans la joie et dans la tristesse, même
dans un possible pacte de décès.

Article Vingt quatrième
Poète non payée pension alimentaire. Ou s’il est avec lui ou contre
lui. Des fistons survivant d’une relation quiconque, resteront sous
leur garde directe et immédiate. Ex-femmes seront pour toujours
des eaux dernières qui ne déplacent pas de moulins, mange des
bougies au vent d’un Navire Catarineta quiconque, je mange des
exercices d’abstractions entre des schismes, ou mange des
apprentissages de dezelos intimes lesquelles cherche calme
s’érafler.
Article vingt cinquième
Se révoquent toutes les dispositions dans contraire,
S’ACCOMPLISSENT – IL que nous faisons La divulgation !
-0-
.www.porta-lapsos.zip.net
E-mail: poesilas@terra.com.br
Itararé-São Paulo, Brasil

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O Kitsch e o Realismo Fantástico

Outubro 20, 2011

O Kitsch e o Realismo Fantástico

Tenho sido assediado amiúde sobre questões – algumas bizarras; outras, nem tanto, não sei por ter atingido a idade da razão – que nos leva a sentir fatalmente as razões da idade. Não sei. E isso sucede não por pressão de amigos, mas por força dos apelos do meio que me cerca. Sei que sou questionado muitas vezes sobre o que é mau ou bom gosto, e sempre acossado, de forma implícita com a máxima popular que reza “gosto não se discute”. E foi precisamente essa máxima que me levou ao conceito de kitsch. E, com ele, a algumas indagações sobre literatura. Por essa vertente, sou inquirido se não é melhor, por exemplo, que as crianças leiam obras do tipo Harry Potter ou similares, do que não leiam nada e que fiquem brincando com vídeo-geimes e quejando. Interpelações desse cariz tem-me intrigado. Devo mesmo confessar que, não raro, fico em dúvida. Não considero, digo de passagem, que seja nocivo às crianças brincarem com jogos eletrônicos. Da mesma forma que não me parece ruim que elas passem algumas horas ao computador. Pernicioso é somente brincar com esses jogos e ficarem o dia todo frente aos computadores. Por outro lado, não estou bem seguro se é de alguma valia ler-se livros de gosto duvidoso, para muitos considerados como lixo “para criar o hábito de leitura”. Na verdade não penso que esse seja o caminho, afinal uma criança ao tomar um remédio de gosto desagradável, pode acabar por ter ojeriza a todos os remédios.
Faz algum tempo li uma matéria de uma importante – e quiçá bastante perniciosa – revista(1) semanal em que o crítico estadunidense Harold Bloom, quando perguntado “Como o senhor analisa o sucesso da literatura infantil atual?”
Deu uma resposta instigante: “É um fenômeno de mercado. A maior parte dos livros para crianças à venda nas livrarias é idiota, não serve para nada, muito menos para suprir a necessidade de leitura de uma criança ou do leitor de qualquer faixa etária. Livros estão sendo confeccionados para vender e se tornar sucessos no cinema e na televisão. Isso nada mais é que uma máscara que oculta o rosto cada vez mais estúpido da era da informação. Os tais livros infantis ajudam a destruir a cultura literária.”
Quando o jornalista indaga, a seguir, sobre se a “Sua opinião mudou em relação à série Harry Potter?”
Bloom completa dizendo: “Odeio Harry Potter. É bruxaria barata reduzida a aventura. É prejudicial ao leitor. Não tem densidade. A escrita é horrível. Lancei a polêmica, sabendo que eu atuaria como Hamlet, que defronta com um oceano de aborrecimentos. Continuo me incomodando com os fãs do pequeno feiticeiro.”
Foi então que me recordei ter lido anos antes em uma também importante revista semanal – e quiçá bastante mais perniciosa que a primeira citada – outra entrevista desse intelectual. Lembrei-me, inclusive, que ao comentar o autor do livro “O Cânone Ocidental”, o hoje falecido jornalista Paulo Francis – contumaz em lançar diatribes contra o Brasil e a sua cultura – rejubilou-se por constar que naquele Cânone não tinha nenhuma obra dos nossos escritores (creio que nenhuma da língua portuguesa), como a dizer que se nos Estados Unidos não se reconhecia valor em nossa cultura, ela não prestava ou não existia.
Antes de citar, porém, a entrevista anterior, a primeira que li de Bloom, vou continuar subvertendo a ordem cronológica e ater-me um pouco mais a essa, somente para ter o prazer mórbido de imaginar os ossos do brilhante polemista raivosamente chocalhando na sepultura, já que ele não pode mais morder a própria língua(2), e citar o que o mesmo Bloom disse, mais adiante, sobre a língua portuguesa e sobre nossa literatura.
“Leio em português com alguma fluência. Machado de Assis figura entre meus autores favoritos de língua portuguesa. Considero Machado o maior gênio da literatura brasileira do século XIX.”
E diz mais: “Machado reúne os pré-requisitos da genialidade. Possui exuberância, concisão e uma visão irônica ímpar do mundo. Procuro um grande poeta brasileiro vivo. Até agora não encontrei nenhum.”
Sobre a língua portuguesa, afirma: “Gosto muito de José Saramago, somos bons amigos, embora eu não concorde com a posição dele em relação à guerra contra o terrorismo. Ele é comunista, respeito as idéias dele, mas não concordo. É um bom escritor. Em poesia, a língua portuguesa legou Camões e Fernando Pessoa. Na ficção, adoro Eça de Queirós e Machado de Assis. (…) Conheço Carlos Drummond de Andrade e ouvi falar de Guimarães Rosa, que adoraria ler. Não sei se terei tempo.”
Feito o registro, e defendido de forma quiçá démodé o país em que nasci, continuo com o tema principal desse trabalho, o conceito do kitsch e sua implicação na literatura, fundamentalmente naquilo em que se relaciona com o realismo fantástico.
É preciso, porém, antes de continuar, dizer-se que necessário se faz ter-se em conta que o realismo fantástico, da forma de que se utilizou (quiçá o tenha criado) Gabriel García Márquez, e Alejo Carpentier, entre outros, principalmente, não está muito subordinado à fantasia apenas, mas ao absurdo, uma vez que a realidade na parte latina do nosso continente é tão surreal; foram tantos os percalços gerados, ao se tentar impor, adaptar a um mundo “bárbaro” padrões europeus de comportamento social, de prática política, que se criou tal mixórdia, ao retratar essa realidade em literatura que os desavisados (e esquemáticos eurocentristas) chamaram-na de fantástica, quando ela o era tão-somente a verdade comum do nosso dia a dia.
Por outro lado, não se pode desprezar que na nossa parte do continente ficou – absorvida ou não, assimilada ou não – um grande contingente de ameríndios de diferentes e em distintos graus de culturas. O que não ocorreu no pedaço anglo-saxão da América, já que lá foi tomada a “profilática” medida de exterminá-los… Isso pode ter contribuído para que lá, naquele espaço, não ocorresse a mesma mixórdia que se deu aqui.
Não sei, porém, se já falei sobre algum aspecto desse assunto em outra ocasião. Se o fiz não importa, por que agora desejo enfocar esse tema sob outro ângulo: tecendo algumas ilações relacionando-o com possível ligação entre o Kitsch e o realismo fantástico. Melhor, entre a fantasia existente em obras Kitsch e o realismo fantástico.
Quando voltei do exílio, bastante familiarizado com o termo, já que tinha uma amiga (filha de uma família uruguaia da elite governante) que sempre o usava, encontrei o país mergulhado em um terrível mau gosto, mas não associei, de pronto, ao conceito do Kitsch, o qual costumava relacionar, quando ainda no exílio, o com a expressão do espanhol castiço, cursi. Mas tarde, quando saí daquele país e fui para o Peru, tomei conhecimento da expressão local – quiçá de cunho popular – guachafo, mais ou menos com o mesmo sentido, ou seja, também relacionada com algo de mau gosto, a qual – para usar uma expressão também local, muito popular – “me encantou”, por parecer-me sonora e, consequentemente, muito expressiva.
Bem, de volta ao Brasil, tendo vindo visitar a Bahia – naquela época minha mãe e irmãos já moravam no Rio de Janeiro – fui ao Museu de Arte Moderna, que já estava instalado naquele magnífico prédio do Solar do Unhão, e lá conheci a arquiteta italiana, a tempos radicada no Brasil, mais precisamente em São Paulo, onde tinha projetado o edifício do Museu de Arte Moderna de lá – aquele original edifício na avenida Paulista, onde se encontra uma importante coleção de arte, reunida por seu marido, Pietro Maria Bardi e adquirida quase toda, segundo comentário quiçá maldosos, graças a expedientes não muito recomendáveis – próximo da chantagem – feitas a milionários paulistanos pelo empresário ligado ao ramo da imprensa, Assis Chateaubriand, o Chatô.
Esses fatos são aqui narrados não para acrescentar dados importantes a esse despretensioso ensaio, mas para situar o leitor (baiano em particular) frente às artimanhas havidas na origem daquele famoso Museu paulista, além de repetir as aventuras daquele paraibano “folclórico”, tido por muitos como um refinado picareta, perdão, embusteiro.
Por que o que me interessa mesmo neste momento é falar que exilado recém-chegado, deparei-me com uma grande curiosidade, muita gente queria conhecer, quanto não tocar, naquelas pessoas que ousaram enfrentar a ditadura militar. Digo isso, porque se não fora a auréola que cercava os exilados é bem possível que a senhora Lina Bo Bardi, não saísse de seus cuidados para ser apresentada a dois pés-rapados (assim dito por que fui acompanhado de outro companheiro, também baiano e ex-exilado, o agrônomo Zenildo Barreto), sem nenhum brilho na constelação cultural da Pátria.
Naquela ocasião havia uma exposição no museu sob o instigante título “O Direito ao Feio”, justamente organizada pela a senhora Bo Bardi. Tratava-se de peças de pinguins de geladeira, anões de jardim, flores de plástico, estatuetas de Papai Noel, imagens ligadas ao candomblé, entre elas figuras de nórdicas sereias representando Iemanjá, mas também havia estatuetas feitas em gesso, do diabo e até a famosa Pomba Gira. Ou seja, figuras kitsch expostas nas casas das pessoas, hoje ditas de baixa renda, que eram chamadas naquela época de pobres, mas talvez fossem apenas pobres por escassa escolaridade.
No momento não relacionei aquela exposição com o termo kitsch, tão meu conhecido. Estava redescobrindo o Brasil, com a cabeça ocupada com outras coisas, em especial com determinada particularidade, da qual falei algures, nessas linhas, relacionada com a curiosidade que algumas muitas mulheres tinham de falar ou tocar nos exilados, mui especificamente tocar, em particular, em determinadas partes do nosso corpo. Porém, o faziam – as muitas que assim procediam – não com fins libidinosos, é justo que se diga, mas por mero afã recreativo, de diversão e lazer.
Mas já estou eu a desviar-me do tema principal deste texto que deveria ser um ensaio, mas que começa a ter características de crônica memorialística, como sucede amiúde com quase tudo que escrevo. Justo é, pois, voltar à distância que separa a fantasia contida no realismo fantástico e o uso vulgar que se faz da fantasia em obras cujo único objetivo é vender. Não me lembro se naquela época já estavam em voga, entre nós, os termos cafona e brega, creio que seriam as formas populares de se referir ao kitsch.
Tempos depois, já devidamente assimilado pelo meio social da pátria, ao ler o livro de Milan Kundera(3) “A Insustentável Leveza do Ser”, encontrei uma esplêndida digressão sobre o kitsch. Mas tarde, li em Paulo Francis – quando ele já morava em Nova Iorque e de lá mandava matérias para alguns jornais daqui, quase sempre com diatribes contra nosso país – a afirmação de serem aquelas páginas a melhor definição do kitsch.
Já no século XXI – e morando definitivamente em minha terra, Bahia – li em uma revista(4) de grande circulação, o arquiteto paulista e decorador em evidência José Antônio Sig Bergamin afirmando: “Kitsch é o brega assumido, mas com toques de bom humor,” e dizia ainda que esta palavra, embora pudesse ser comparada a cafona, havia, entre as duas sutis diferenças, porque “cafona é a aberração, o mau gosto levado ao pé da letra, aquilo que dói aos olhos.”
Em uma vista d’olhos nos dicionários – coisa que faço amiúde – encontrei, no Houaiss, como informação etimológica, que essa palavra, kitsch era o mesmo que lixo, vinda do verbo kitschen, relacionado com “varrer a lama ou o lixo das ruas, juntar restos ou objetos inúteis”; usada, por volta de 1925, em relação a algumas obras de artes, que se caracterizavam “pelo exagero sentimentalista, melodramático ou sensacionalista, frequentemente com a predileção do gosto mediano ou majoritário, e pela pretensão de, fazendo uso de estereótipos e chavões inautênticos, encarnar valores da tradição cultural”. Podia aparecer, na literatura, na pintura, com particular frequência na decoração e em relação aos souvenires. Citava mesmo a máxima que afirmava: “as massas manifestam amor pelo kitsch”.
Já no Aurélio(5), depois de confirmar que a palavra era de origem alemã, informava que o Kitsch (e aconselhava usar maiúscula quando o termo fosse empregado como substantivo) era o “estilo, ou material artístico, literário, etc., considerado como de má qualidade, em geral de cunho sensacionalista ou imediatista, e produzido com o especial propósito de apelar para o gosto popular.” Nos últimos anos, o Kitsch está sendo usada com significado similar a brega. No entanto, esta palavra, na Bahia, está relacionada com zona de prostituição, ou seja, o próprio lugar das prostitutas, os lupanares. Nesta acepção, ficaria implícito que as prostituas teriam acentuado mau gosto. Rápida passada pela Internet(6), encontrei informações genéricas, como quase sempre se dá, bem ao gosto “kitsch”, diria.
De interessante deparei-me só com o dado de Umberto Eco(7), sugerindo algumas curiosidades etimológicas sobre a origem do termo: “Segundo ele remontaria à segunda metade do século XIX, quando os turistas americanos em Mônaco, querendo adquirir um quadro, mas a baixo preço. Pediam o “esboço” (sketch). Daí teria vindo o termo alemão para indicar a vulgar pacotilha artística para compradores desejosos de fáceis experiências estéticas. Todavia em dialeto meklem-burguês(8) existia já o verbo kitschen por “recolher o barro da estrada”. Uma outra concepção seria “mascarar móveis para parecer antigos”, enquanto se tem o verbo verkitschen por “vender a baixo preço”.
No mesmo texto consultado, é dito em relação ao “princípio de mediocridade”, que “o kitsch chega próximo do vulgar, mas essa mediocridade facilita a absorção do consumidor”. E que do ponto de visto do “príncípio de conforto” o kistch, “enche a vida da sociedade de consumo de sensações, emoções e pequenos prazeres”.
Dizia, ademais, que o “termo kitsch é utilizado para designar o mau gosto artístico e produções consideradas de qualidade inferior. Aparece no vocabulário dos artistas e colecionadores de arte em Munique, em torno de 1860 e 1870, com base em kitschen, [atravancar], e verkitschen, [trapacear] (vender outra coisa no lugar do objeto combinado), o que denota imediatamente o sentido pejorativo que o acompanha desde o nascimento”.
Bem, continuando, mais adiante encontrei algo digno de ser citado: “O kitsch se populariza na década de 1930 com as formulações dos críticos Theodor Adorno (1903-1969), Hermann Broch (1886-1951) e Clement Greenberg (1909-1994), que o definem por oposição às pesquisas inovadoras da arte moderna e da arte de vanguarda. Pensando o kitsch com base no conceito marxista de ‘falsa consciência’, Adorno localiza-o no seio da indústria cultural e da produção de massas. Broch, por sua vez, opõe a arte criativa às imitações e convenções artificiais que orientam as produções kitsch. Greenberg define o ‘estilo’ como arte da cópia, das ‘sensações falsas’ e da obediência às regras acadêmicas. Nesse sentido, o kitsch é definido como o avesso da vanguarda. Diz ele: ‘Onde há uma vanguarda geralmente também encontramos uma retaguarda’.”
Foi em função desse fragmento do pensamento de Greenberg, “[…] da obediência às regras acadêmicas”, que me veio também à mente uma velha implicação que tenho em relação aos trabalhos acadêmicos, em particular “aos primeiros passos ao caminho para o paraíso” que representa a empáfia de alguns que ostentam altos títulos universitários. Certa ocasião ouvi de um doutor que “não lera um texto (ou paper, como gostava de chamar do alto do pedestal do seu título) porque era eclético, com muitas citações, e ele tinha dificuldade de acompanhar o raciocínio do autor. Reconhecia, porém, que o trabalho tinha consistência”. Na ocasião pensei que o jovem doutor era falto de conhecimentos, para não dizer inteligência. Foi por essa época que cunhei a frase: Doutores de uma nota só. Que somente não me causou mais dissabores porque “moro longe” – como se dizia no meu tempo de jovem – e poucos eram os que liam minhas diatribes. Ao ler a citação de Greenberg solidificou em meu espírito uma certeza que avinha a incomodar fazia algum tempo. Nada era mais chato (ou cacete, antes dessa palavra transformar-se em vulgaridade) de que um daqueles papers universitários. Monótonos e enfadonhos, tinham todos o mesmo padrão, ou seja, as ideias eram expostas sempre da mesma forma. Em nenhum daqueles trabalhos podia-se vislumbrar a opinião do autor, todos começavam com – digamos assim – com uma introdução padronizada, para logo a seguir aparecer uma citação do tipo, fulano disse tal coisa, beltrano desse tal outra. Da modéstia depressão do meu parco saber, nunca imaginei que aquele era um comportamento Kitsch.
E o eram porque os artigos de conclusão de licenciatura(9), as dissertações de mestrados e as teses de doutorados, todos eles, no fundo, no fundo, não passavam de flores de plásticos, só aparentemente diferentes, mas, no espírito, completamente iguais, como os pingüins de geladeira, os anões de gesso dos jardins e outras estatuetas similares. Nesses trabalhos pode-se encontrar tudo, menos aquilo que pensam os seus autores. E como sou de opinião que ensinar é ensinar a pensar, como ficamos?
Sabia, ademais, que Adorno, Broch e Greenberg eram intelectuais de pesos, mas temia que as referências a eles fossem – como sói ocorrer com aquela enciclopédia – feitas en passant(10) – sem o cuidado e a profundidade necessários. Sem embargo (ou por isso mesmo) continuei com aquela pequena pesquisa.
Mais adiante, nesse mesmo artigo, encontrei “Ainda que, muitas vezes, se fale no kitsch como um conceito universal – reconhecível, portanto, em qualquer época e estilo artístico –, a maior parte dos estudiosos encontra-o no seio da sociedade industrial, de feitio burguês, o que faz dele um dos produtos típicos da modernidade (Eu diria: típico da sociedade de consumo). A pujança do kitsch, indica Abraham Moles(11), coincide com a expansão do mercado e a emergência da sociedade de massa que impõem normas à produção artística ditadas pela difusão e possibilidades de aquisição de produtos artísticos – de modo geral, reproduções e cópias – em função dos baixos preços(12). Os grandes magazines, que abrem as portas a partir da segunda metade do século XIX, dão vazão aos novos produtos que visam agradar a classe média: porcelana, bibelô, estatueta, cromo com reproduções de estampas e/ou figuras célebres etc. O kitsch apresenta-se desse modo como a arte que está ao alcance do homem, disponível nas vitrines e casas comerciais”.
No entanto, meu temor em deparar-me com artificialidade, esbarrou em três parágrafos que me deram algo a pensar, surpreendendo-me positivamente. No primeiro estava expresso que “Os artifícios do mundo burguês revelam-se nos produtos kitsch, confeccionados em geral com novos materiais que nunca se apresentam como são: a madeira é pintada imitando o mármore; os objetos de zinco, bronzeados; as estátuas de bronze, por sua vez, douradas. A norma consiste em utilizar matéria-prima considerada inferior – por exemplo, gesso, estuque, ferro e zinco – dissimulando-a para que pareça nobre”. E continua este parágrafo: “[…] Nota-se ainda a tendência ao exagero e à acumulação de elementos numa só composição. Nesse sentido, a arte kistch é essencialmente sincrética, alimentando-se de elementos retirados de diferentes escolas e artistas. Localiza-se, assim, nas antípodas da funcionalidade e do despojamento que caracterizam, por exemplo, as obras da Bauhaus(13)”.
No segundo parágrafo vemos que “A despeito das considerações críticas sobre a existência de uma oposição entre o kitsch e as vanguardas, nota-se uma estreita relação entre os termos: tanto as produções kitsch incorporam procedimentos das vanguardas quanto, ao contrário, diferentes movimentos de vanguarda se interessam pelo kitsch […]” E dá, como exemplo, a travessura de “[…] Marcel Duchamp (1887-1968) numa reprodução da Gioconda de Leonardo da Vinci”. E conclui o parágrafo: “[…] O ato e a obra de Duchamp empreendem uma leitura da tradição com caráter falsificado e postiço que ela assumiu no mundo moderno”.
Mais além do implícito sabor de traquinice infantil, não totalmente isenta de humor, ironia e da busca de publicidade – atitude que, em última instância, não deixa de ser uma atitude Kitsch – a colocação de bigodes na Mona Lisa, que Duchamp realizou, cujo “caráter de arte de vanguarda” possa estar apenas no peso do nome do autor, continuemos, pois, com aqueles textos tirados da Internet.
Depois de citar toda uma série de loucuras surgidas após aquela Guerra – loucuras essas que, diga-se de passagem, jamais se aproximaram do grau de insanidade dos atos praticados por ambos os lados que combateram naquela ocasião –, dando como exemplo “[…] as naturezas-mortas de Tom Wesselmann (1931), compostas com produtos comerciais; os quadrinhos de Roy Lichtenstein (1923); as esculturas de Claes Oldenburg (1929), em Duplo Hamburguer, 1962; e as obras de Andy Warhol (1928-1987), 32 Latas de Sopas Campbell, 1961-1962 […]”. Para concluir afirmando que “[…] O pós-modernismo da década de 1980 rompe mais uma vez, e com resultados diversos, as fronteiras entre o kitsch e a chamada arte erudita”, restando-nos a pergunta se essa ruptura se deu por rebeldia inerente aos vanguardistas, de todas às épocas, ou se como um brado a insinuar (dizer?) que o nosso mundo está cada dia mais medíocre? Assim sendo, a arte nele produzida só pode retratar o feio, o Kitsch.
O que se seria de indagar, contudo, é se essa postura dos artistas ligados à arte pop nasceu de um frio calculo intelectual, ou se por feridas psicológicas deixadas pela insanidade dos atos praticados por ambos os lados que destruíram grande parte da Europa, por falta de sensibilidade similar à presente na alma dos grandes gênios criadores, do porte de um Miguelangelo (em Davi, por exemplo), capaz de captar no mármore as proporções exatas da musculatura humana, além de reproduzir a perfeição, na pedra, o sentimento que podia estar, não no rosto do modelo, mas imaginado pelo escultor. Ou, especula-se, seria por que a incapacidade de captação estética deu-se devido a que suas almas estavam esterilizadas justamente pelas brutalidades havidas durante aquele conflito bélico?
No último dos três parágrafos a que me referi, é dito que o “[…] período posterior à Segunda Guerra Mundial, 1939-1945, a arte pop(14) retira o sentido pejorativo que cerca o kitsch. A arte pop se apresenta como um dos movimentos que recusam a separação arte/vida, e o faz – eis um de seus traços característicos – pela incorporação das histórias em quadrinhos, da publicidade, das imagens televisivas e do cinema. Ao aproximar arte e design(15) comercial, os artistas superam, propositadamente, as fronteiras entre arte erudita e arte popular, ou entre arte elevada e cultura de massa, flertando sistematicamente com o kitsch”. Afirmação que, de certa forma, não deixa de ter seu quinhão de verossimilitude, afinal em um mundo que destruiu seus próprios valores morais e intelectuais, quando se passou a enaltecer – como o sugeriu o poeta –, de forma generalizada o ter em detrimento do ser. E, finalmente, em um mundo que tinha como pano de fundo cidades completamente destruídas, centenas de órfão, viúvas e mutilados vagando por entre montanhas de ossos humanos – calcinados ou em fase de… – em busca de comida no lixo – lixo esse composto particularmente de latas de carne e sopas da abundância capitalista do lado vencedor –, teria mesmo que incorporar, como belo, o feio. E esse trabalho coube aos artistas nascidos dos escombros daquele mundo pós-guerra. Artistas desesperados, de almas feridas, que só conseguiam expressar-se daquela forma e, para fazê-lo, apoiavam-se nas drogas. Não seria por acaso que o mergulho em psicotrópicos – tão em voga no final do século XX e atualmente neste nosso século XXI – é chamado de viagem. Viagem – frise-se bem – em busca de um mundo perdido, só existente na memória dos sobreviventes nas diferentes obras de arte ou como herança genética coletiva.
Em outro artigo(16), também da Internet, encontrei algo assaz interessante, que começava com a pergunta: “O que é ser Kitsch???!!!!”
E, depois desta introdução: “Este site tem um nome que envolve dois conceitos propositado ou aparentemente contraditórios”, e vinha a resposta: “Se as qualidades do cult(ura) são a uma busca em direção ao conhecimento original e genuíno, o Kitsch é uma arte falsa, de fácil compreensão, para mero entretimento e prazer e reprodução de padrões já existentes.
“O Kitsch surge como a kultura acessível a todos, com o aparecimento e ascensão da classe média, da produção em massa e da vida aborrecida dos tempos mortos gerados pela diminuição dos horários de trabalho.
“Como tal a Cultura e a Arte tornam-se Kitsch quando são produzidas em massa e com o objetivo de se adaptar ao público e ao Mercado (isto não é arte é design).
“A Cultura e a Arte como mera reflexão do status atual da sociedade é exatamente o conceito legitimador para ser aplicado ao Kitsch da Kultura de massas com a sua falsa consciência estética e pseudo-catarse social”.
Com essa matéria, em que aventa outros ângulos da questão relacionados ao Kitsch, entrando até em conflito com o que é dito naquela enciclopédia, levou-me a especular, uma vez mais sobre a ligação intrínseca entre o Kitsch e o capitalismo, se o desenvolvimento do primeiro não acompanhou ou obedeceu pari passu o segundo?
Foi então que solidificou em minha mente aquilo que vinha suspeitando faz algum tempo. O Kitsch está inseparavelmente associado à sociedade de consumo, filha dileta e objetivo último do capitalismo. Porque o desenvolvimento desse sistema – acumulador, por excelência – implica em que se consuma sempre mais. E como para que tal suceda, é preciso que se fabrique sempre mais. E como a forma mais dinâmica de fabricação tem que obedecer ao ditame de ser fazer sempre o mesmo objeto e sempre da mesma forma, ainda que possa conter pequenas e aparentes modificações. Tendo sido esse princípio justamente o que determinou o surgimento da linha de montagem, dessa forma as bases do Kitsch industrial (digamos assim) estavam, senão criadas, mas certamente solidificadas.
E isso se deu quando Henry Ford, ao criar (ou aperfeiçoar) aquela linha tornou possível que o seu Ford T fosse adquirido de seca a meca e olivais de Santarém(17), graças a um modelo padrão, significando isso que todos deveriam usar um mesmo tipo de automóvel, como os colegiais usavam o mesmo uniforme, as bases do Kitsch industrial (digamos assim) estavam criadas. Não foi por acaso que foi glosado o mote(18) publicitário – perdão – o slogan: “Você pode escolher a cor do seu Ford T, desde que seja preto”. Indispensável dizer que, por razões de produção de massa, aquele automóvel só era fabricado naquela cor.
Nas aulas de História, no meu tempo de menino, falava-se que antes das Grandes Navegações, mais precisamente antes de os portugueses terem trazido do Oriente a cana-de-açúcar para o Brasil, o produto resultante da elaboração dela, justamente o açúcar, fazia parte do dote das princesas, em uma proporção de dois quilos, devido a seu alto custo. A manufatura em grande escala tornou esse preço irrisório, no entanto permitiu que milhões de pessoas pudessem adquiri-lo em escalas expressivas (quase disse “globais”), dando um salto muito parecido à inversão daquilo que os marxistas classificavam como salto de qualidade. Só que, uma vez que todos a compravam a quantidade superava a qualidade. Dessa forma o eventual lucro pela venda de dois quilos a umas poucas princesas, foi superado pela venda de toneladas a milhares de pessoas.
Saltando do século XVI para nossos tempos, poder-se-ia citar os exemplos dos computadores portáteis, dos celulares e tantas outras bugigangas eletrônicas – perdão –gadgets, sem as quais ninguém mais pode viver no mundo atual. Produtos que, de forma mágica, saem sempre novas fornadas, com inovações de pacotilha.
Por outro lado, a mesmice padronizada atingiu a todos os setores da vida humana, se é que se pode chamar de vida o ato monótono de consumir e consumir mais. Não foi por acaso que alguém, possivelmente um desesperado, disse que a civilização Ocidental está em contradição com a vida. O que não resisto em solicitar que atualize essa máxima: E a milenar civilização do Oriental caminha no mesmo sentido, também.
Não há nada mais monótono do que os apartamentos de um hotel – de luxo ou mais modesto – sua recepção, seus móveis, o que servem em seus restaurantes. Pode haver algo mais sensabor do que os shoppings centers? Sempre que necessito entrar em um volto a constatar que eles são verdadeiros – com perdão do lugar-comum – templos do consumo. Por outro lado não me eximo de fazer comparação com os bazares – em sua forma original persa ou como os árabes copiaram-no –, e penso se os shoppings não seriam a versão moderna daqueles estabelecimentos, com a diferença visual entre ambos – os bazares no seu harmônico colorido, seu exotismo e sua arrumação aparentemente caótica –, mas parecendo a expressão da arte popular espontânea; enquanto os shoppings – com suas lojas padronizadas, suas vitrines assépticas, sua iluminação sempre igual –, não seriam a versão moderna e, portanto, Kitsch, daqueles tradicionais estabelecimentos?
Chegado a esse ponto de minhas especulações, algumas delas instigadas pelo que li em especulações alheias, constato que tudo que consegui amealhar foram ilações relacionando o Kitsch ao mundo do suvenir, da decoração, da arquitetura, da reprodução em gesso de estatuetas, mas nenhuma inferência com literatura.
Foi aí que me lembrei outra vez de Paulo Coelho, e de obras do tipo Harry Portter, “O Senhor dos Anéis” e “Crepúsculo(19)” e caterva. Mas isso me revelava, paradoxalmente, um outro problema. O que seria o Kitsch em literatura?
Durante muito tempo também assim foram consideradas as novelas policiais, do tipo Ágata Christie, mas aquele tipo de literatura que fora classificadas (ou o fora por muito tempo) como apenas entretenimento, talvez não se enquadrasse muito nesse conceito, até mesmo por que a chamada “dama do crime(20)”, com o passar do tempo, acabou sendo cultuada por muitos(21), e começou a ser considerada cult.
Onde então minhas preocupações iriam parar?
Em autores do tipo Corin Tellado(22) e similares? Talvez. Pois, ao constatar que essa autora, sem o apoio dos meios de comunicação impunha-se ao mercado, criava gostos e necessidades, além de suprir anseios e satisfazer sonhos de pessoas hoje chamadas de baixa renda – o que já a aproximava muito de um tipo de livros atualmente chamados de auto-ajuda, da qual Paulo Coelho é o guru máximo – vendeu milhares de exemplares e por muitos anos e em vários países, voltei aos meus demônios preferidos: o próprio Paulo Coelho(23), e as obras do tipo Harry Portter, “O Senhor dos Anéis” e “Crepúsculo”, e não podia deixar de supor que esses livros eram a versão, em letras impressas, de objetos como a Barbie e outros bonecos de plástico, vendido em profusão e consumidos por muitas e muitas gerações.
Mas o primeiro daqueles autores – que também vende milhões em todo o mundo – foi agraciado com a Legião de Honra do governo francês, tendo sido, logo a seguir, admitido na Academia Brasileira de Letras – ABL – mas esse último detalhe o era de somenos importância, uma vez que daquela Academia fizeram parte – ao lado de nome gloriosos de nossas letras –, Assis Chateaubriand, um general da ditadura, Roberto Marinho e outros espécimes.
Foi em uma conversa com minha amiga (e secretária) Juscimare Silva de Souza, cujo artigo de licenciatura baseou-se justamente no realismo fantástico, que me forneceu a pista para o título desse trabalho e, de passagem, para concluí-lo sem chegar, contudo, a uma coerente conclusão. Afinal, mesmo excluindo Paulo Coelho – autor ligado a auto-ajuda(24) –, os livros do tipo Harry Portter, “O Senhor dos Anéis” e “Crepúsculo”, em matéria de fantasia eram, como diziam seus adoradores, dez. Então ela me perguntou o que aquele pormenor tinha a ver com o realismo fantástico?
Já tínhamos conversado que fantasia era um dos componentes daquela escola literária, mas não o único. Ademais, a fantasia mais engenhosa podia ser prejudicada se fosse expressa em termos vulgares, por meio de lugares-comuns, clichês. Então, estendemos nossa conversa para a manifestação do Kitsch em ocorrências do cotidiano. Podia haver situação mais Kitsch do que a tendência existente entre pessoas das classes médias baixas e entre as chamadas emergentes do que a colocação de nomes vindos do inglês em seus filhos?
Quando esse prenome era aportuguesado, a situação Kitsch superava o mau gosto para cair no ridículo simplesmente, como corria no caso de nome duplo Uésler Uéndel. Recordei-me ainda de uma jovem que tinha sido registrada como Vilma, mas como usaram a letra o dáblio em vez do vê inicial, ela dizia-se Uilma.
Havia, porém, a situação mais Kitsch que tinha constatado em relação a nomes. Um importante jogador de futebol, que fora defensor do meu clube preferido, o Vasco da Gama, que se chamava Odivan (ou Odivã). Este declarara em um programa da TV, que seu pai inspirara-se em uma música cantada por Roberto Carlos, que tinha um verso com aquele nome. Resulta que não havia “aquele nome”, mas uma frase que falava de “O divã”, no caso divã era uma “espécie de sofá sem encosto”, ou uma “espécie de canapé que pode ser usado como cama”. A palavra viera do persa, através do francês, conforme se via nos dicionários. Quando à vogal inicial fora apenas o artigo masculino singular que, em curiosa fusão, dera origem ao agora prenome Odivã.
Depois parei com esse lado da manifestação do Kitsch, afinal estava a invadir área de especial estudo do meu amigo, João Pina Cabral, antropólogo português que, quase todo ano, visitava-nos em Valença, BA, especialista em nomes em nosso idioma. Ademais, essas situações, mesmo classificadas como Kitsch, talvez fosse melhor chamá-las pela forma popular, tão em uso entre nós, de cafona ou de brega, afinal nasciam do impacto entre dois excessos, o de informações e o de falta de escolaridade. Ou ignorância, como dizíamos na Bahia quando eu era jovem.
No entanto, ao falar do problema da fantasia e como ela era expressa de forma vulgar, lembrei-me de retornar a primeira entrevista de Harold Bloom(25), famoso crítico estadunidense, dada a uma grande revista(26) semanal, em particular a uma afirmação que ele fez à pergunta: “Por que não ler os livros de J.K. Rowling, a autora de Harry Potter?”
A que ele respondeu: “Li apenas uma das obras dessa autora. A linguagem é um horror. Ninguém, por exemplo, ‘caminha’ no livro. Os personagens ‘vão esticar as pernas’, o que é obviamente um clichê. E o livro inteiro é assim, escrito com frases desgastadas, de segunda mão. Escrevi uma resenha para o Wall Street Journal falando mal de Harry Potter. A polêmica foi imediata. Foram enviadas mais de 400 cartas me xingando de todos os nomes. A defesa de livros ruins como esses, que vem de todos os lados – dos pais, das crianças, da mídia –, é muito inquietante e nem um pouco saudável.”
Antes, porém, com alguma ironia, Bloom responde, quando é perguntado: “Livros como os da série Harry Potter não são uma boa porta de entrada, um meio de despertar nas crianças o interesse pela literatura?” Esse tipo de postura, pergunta ou questionamento, é comum ouvir-se entre nós, a qual me referia no início deste trabalho, e que agora reforço apoiando-me na resposta de Bloom: “Você realmente acha que as crianças vão ler coisas melhores depois de ler Harry Potter? Eu acho que não. E um dos piores escritores da América, Stephen King (ele é terrível, não consigo ler nem dois parágrafos do que escreve), confirmou minhas suspeitas numa resenha que escreveu para o jornal The New York Times. Segundo ele, as crianças que aos 12 anos estão lendo Potter aos 16 estarão prontas para ler os seus livros. Preciso dizer mais? Os Estados Unidos são um país em que a televisão, o cinema, os videogames, os computadores e Stephen King destruíram a leitura.”
Lendo Bloom não pude deixar de concluir que se o caminho para se chegar ao mundo mágico do realismo fantástico for por meio daqueles livros, é melhor começar a compor um réquiem não só àquele gênero de literatura, mas para a cultura como um todo.
Sabia que “vender livros” era, quase sempre (como sucede em relação a todos os produtos da sociedade de consumo), uma questão de marketing e não de qualidade. O meu amigo Alfredo Gonçalves de Lima Neto, um dos melhores contistas entre os novos escritores hoje do Brasil, costuma, grosso modo, dizer: “Você não compra um livro por que deseja ler, mas por que seu vizinho comprou (sem nenhum propósito de ler), seus colegas de trabalho também (com a mesma finalidade) compraram. Ou seja, compra por que a mídia falou que é bom, então todos (uma grande e anônima maioria que faz parte do seu universo) assim o fizeram. E você também.”
Certa feita meu amigo expressou-me: Sou muito resistente a determinados modismos. Sempre pensei que há uma boa distância entre uma brincadeira com roupagem de rebeldia de algum escritor e a busca de tornarem-se ainda mais célebres, uma vez que há pessoas que, mesmo já possuindo fama, não estão isentas de buscar mais 15 minutos de glória, sempre que possível. Acho ainda que a maioria dos artistas – inclusive os da palavra – não é imune às posturas polêmicas com apenas o fito de colocar-se mais em evidência. Tomo, como exemplo, o caso da poesia concreta. Ela nunca chegou ao meu coração e, muito menos, a minha sensibilidade. Ela, ao usar as palavras para formar grafismo, para reforçar a idéia, não me desperta estesia. Penso que a palavra em si tem tanta força que dispensa a ilustração, mas penso também que a força das palavras está no conjunto de seus significados, no poder de suas sílabas e, no caso da poesia, na beleza da sua sonoridade.
Em outra ocasião, estávamos conversando, e o meu amigo indagou-me se não haveria uma relação de causa e efeito entre a oferta de obras relacionadas com o Kitsch e a procura ávida, por parte de uma grande massa, dessas mesmas obras? Citou-me, como exemplo, o que ocorria durante o carnaval em Salvador – período em que impera essa coisa execrável que é o axé-music –, quando, vez ou outra, ocorria dalgum músico executar a Ave Maria de Gounod(27) e até pequenas obras de Beethoven, de cima do trio elétrico, para delírio da massa embriagada de cerveja e de outras drogas. Vendo por minha expressão que não estava atinando para o alcance da sua observação, Alfredo complementou dizendo que muito bem poderia estar sucedendo um fenômeno típico desses tempos pós-modernos. E vendo que a minha perplexidade persistia, acrescentou: “Bem, pode ser que esses músicos, alguns de inegável talento, ao executarem peças clássicas, estejam dizendo (ou insinuando) que o lixo que executam durante o carnaval – ou Kitsch, como você gosta de classificar – seja apenas para satisfazer as massas ignaras – e, naturalmente, para ganhar dinheiro –, mas que eles sabem perfeitamente o que é música de bom gosto”.
Claro que ele não excluía a existência de oportunistas, especialmente cantores, que apelavam para letras cuja rima – ou melhor, o refrão (pois essas se consistiam apenas de um cantochão repetitivo) – era apenas pornografia grosseira, melhor dizendo, pornofonia de infligir a lei dos bons costumes. Esses eram precisamente os mais vendidos, os mais tocados, ainda que essa evidência fosse efêmera, para que no próximo carnaval outros exemplos com o mesmo mau gosto surgissem e fossem acompanhados ao delírio.
O que não deixava de ser verdadeiro, e aplicava-se a vários produtos adrede criados com esse objetivo. Afinal a aceitação ou não de um produto novo – e quanto mais supérfluo fosse mais válida seria essa premissa – pelos consumidores estava sujeita a uma boa estratégia de lançamento. Marca-se uma hora em que o produto estaria disponível em uma grande cadeia de lojas de departamento. Para isso, usava-se de uma também boa estratégia de divulgação por todos os meios da mídia. Alguma celebridade daria uma entrevista dizendo que estará entre os primeiros a ir à loja comprá-lo, e outras baboseiras do gênero. Pela madrugada haveria uma longa fila à porta do estabelecimento, onde os meios de comunicação fariam entrevistas relâmpagos, quando seria dito que “acampei aqui desde ontem”. Mostrar-se-ia seguranças atentos para prevenir quaisquer tumultos na hora da abertura das portas. Possivelmente se faria uma contagem regressiva, como o lançamento de um foguete. Pronto. Estaria assegurado o sucesso de vendas. Não foi por acaso que uma multinacional, cujo produto mais importante é uma sandália de borracha, transformou-a em um produto indispensável às mulheres de todo o mundo, as que podem consumir.
Por isso que um importante executivo de outra empresa declarou, grosso modo, em entrevista à TV, “quem transforma em pedaço de borracha em um produto indispensável a milhares de pessoas, é um gênio”. E citava o nome desse gênio: uma mulher.
Imagino, ao ver o número de exemplares que aqueles livros venderam em todo o mundo, que foi usada estratégia semelhante. E essa estratégia aplica-se a salsichas, a cremes de beleza (para mulher e agora para alguns homens também), a celulares, a tablets e a outros produtos criados para serem fetiches. Grande parte daqueles livros não será lida, salvo os que pertencem aos adolescentes criados frente à TV, adestrados com vídeo-geimes, cuja fidelidade aos seus ídolos do molde do Harry Portter prevalecerá até que surja – incensados pela mídia – outro herói similar.
Esse tipo de estratégia, que visa impor a uma maioria um mesmo gosto, uma mesma atitude, um mesmo comportamento, fazendo o grosso das massas acreditarem que aquelas opções nasceram de seu “livre arbítrio”, foi desenvolvida pela equipe de Joseph Geobbels(28), empregada para impor, como esmagadora verdade popular, os pontos de vista dos nazistas ao povo alemão. Essa estratégia, que ganhou foros de ciência de comunicação de massas, chegou-se a elaborar uma fórmula, a Lei dos 7%, e hoje é usada como apanágio para o capitalismo democrático do mundo Ocidental, para vender mais.
Frente a essas pobres constatações, pode-se – repetindo – concluir que o Kitsch é algo inerente à sociedade de consumo, ou seja, o objetivo principal do processo de acumulação do capitalismo, uma fatalidade da qual nenhum de nós poderá fugir, uma vez que, para se produzir em grande escala, indispensável será um rigoroso método de estandardização, que terá que atingir todos os aspectos da vida humana. Não somente da vida material, mas da social e da psicológica. Em outras palavras, é preciso destruir a alma do ser, transformando ele próprio em um objeto. Objeto que consume. Ao chegar a essa conclusão, lembrei-me de que há uma bebida fermentada, também de origem alemã – aliás, muito saborosa – cujo nome é: “kirsch”, formando uma palavra quase homófona (e homônima) com Kitsch, uma vez que a única diferença na grafia e a substituição do ere pelo tê. Dessa forma resolvi tomar uma boa dose dela e aconselhar – em uma atitude bem ao espírito dessa matéria – as pessoas a não confundirem uma com a outra, ou seja, Kitsch com kirsch. Principalmente se beber essa última em excesso.
Ah! Não esqueça. Bebendo-a não dirija…
© Araken Vaz Galvão
Valença, BA, 6 de outubro de 2011

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VERMES, POEMA DE SILAS CORREA LEITE

Outubro 8, 2010

VERMES

O cientista no trem carregava um pote
De Vermes – para as suas experimentações
Na Estação de Itararé, o pesquisador
Levava inconclusões em seu empirismo

Sondei o homem triste, infeliz, ansioso
E contemplei os Vermes no pote de vidro
Fiquei com pena dos vermes, a irem
Com ele para o seu laboratório de Ser…

Depois fiquei com pena mesmo do homem
Os Vermes certamente melhores do que ele
Um dia o tomariam inteiro para si
E todos seriam vermes, homens, e eles…

Com pena do homem – (ou dos Vermes?)
Quedei-me a meditar todo confuso ali
Que Verme é o homem que mal se cabe em si
A procurar no bisonho o que de si é ver-se

-0-

Silas Correa Leite
Santa Itararé das Artes, SP, Brasil
Site: http://www.itarare.com.br
E-mail: poesilas@terra.com.br

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Romance UM, de Geraldo Lima, Um Clássico

Julho 25, 2010

Pequena Resenha Crítica

Romance “UM”, de Geraldo Lima – O Discurso Amoroso da Dialética Consciencial

“Estou farto de muita coisa (…).

Eu quero a destruição de tudo o que é frágil”

 Roberto Piva

 O que pode o ser humano, senão, entre seres humanos, AMAR?. Parafraseando o poeta, é isso o que se dá, naquilo que Cazuza chama de sua metralhadora cheia de lágrimas, em Um, o romance de Geraldo Lima, LGE Editora, uma dialética do discurso amoroso em que permeia a consciência, o paradoxo, o ser humano (no caso, sensível), entre seres humanos, AMANDO. E com tudo isso, claro, a narrativa que vai e volta, choca e instiga, se esconde, aparenta, cita, permeia, desce e sobe, sempre sob o pântano da condição humana nas relações humanas. Será o impossível? Geraldo Lima debuta e enlaça narrativas como quadros cênicos dessa relação amarga-doce, bonita-feia, alegre-triste, sensual-bizarra, mas, antes de tudo, como as cartas de amores são ridículos – olha o Fernando Pessoa! – romances de amor nesses tempos pós-modernos também. Pior, se entre o sagrado e o profano, a carne e o sangue, o santo e o convexo, vivenciam diálogos impertinentes, bem costurados com arrojo de criar sem cair na pieguice romântica do quase ou tanto… pode se dizer que o amor acaba mas a saga continua. Ex-amores são para sempre? Pois é: o amor tem sim, loucura que a própria lucidez desconhece. Como se descascasse uma cebola de relação que ameaça, explicita, sai de cena, pensa-se, o autor vai retaliando a relação, fatiando sofrências, acontecências, dando tempo ao verbo e o verbo se faz carne, como se faz tensão, solilóquio, espírito e carranca. Olha a consciência como leitmotiv. Ana é o fio de Ariadne ou Ariadne é uma consciência sagrada pesando, fio condutor, para um interlocutor (interlocutora – a consciência?) onde sempre depositamos o pão e o vinho, do que se vem da carne nas relações proibidas/permitidas, só sonhadas, quem o sabe? Crime e castigo? Ah o crime de amor que faculta o existir… A consciência é a serpente que envenena intenções (ou possíveis intenções em treva branca), ou clarificando pensares, ilações/alusões, faz um inventário de partilhas íntimas, abre véus, aponta o que existe e até o que não existe? Geraldo Lima demonstra isso aqui e ali, teatrizando ora o possível, o entendido como havido, o medo de algo-alguma coisa, resvalando ora na poesia, ora na prosa, ora meio que lispectoriano sem perder a mão (e a ternura) jamais. Gostoso lê-lo. A Ana que foi (foi?) e já não é. A Ariadne que poderia ter sido e não foi. O entremeio, o intertexto, as citações, o seminário (que aqui vem de sêmen?…); o possível pecado de, o padre e os estudos, o corpo, a devassidão; nunca completam de uma perdição cobra-cega no paraíso do contar. Que consciência é o divã? Divã de idéias; divagar delas, ah o romance como fio de meada, fio de Ariadne, olhar enviesado, tirar de véus, entrecortar, contando, entrecontar, cortando, pinceladas mágicas de ternura, sensibilidade, como se tudo entre quatro paredes, o voyouver, e vai por aí o bolero-(tango-)mixórdia da contação. O castiço a rapariga, o mortiço dos ambientes propositalmente turvos, e o sexismo, o amor e o pudor. UM, o Romance de Geraldo Lima poderia também se chamar Inferno, fosse invocada a consciência como narradora. Tudo bem, é o espírito que ama o espírito, antes do corpo amar o corpo… isso, nas fáceis vidas difíceis, mas, entre uma sedução e um seminarista, tudo ralhado, há bulhas e cismas. Periga ver. Sentir, chocar com o olhar do que conta o vai-da-valsa, com um medo-coisa, uma solidão-embuste, uma aparência que, sim, engana. De propósito? Depois que conhecemos o amor, em que lugar (de nós) deixamos as asas? Extremos e lumes. Sangria desatada a… de novo, consciência… repigando sentimentos e ressentimentos. Tudo a ler. Que cenário é a mente, a casa, a história, lugares nenhuns, todos os lugares? Paulo tece os momentos que passou com Ana, a quase fêmea-fatale (não são todas?), a mulher-aranha com quem morou por algum tempo. Fala da amiga Ariadne, tece acontecimentos e pessoas como referências de vida de passagem. E há o padre Artur, que lhe foi uma espécie de mentor. Com o autor caímos na redoma de vidas, além, claro, de uma sua experiência transformadora que nos leva a reflexões ora incabidas, ora insabidas, ora sagraciais. Sim, meus irmãos, cada um sabe a dor e a delicia de ser o que é, e o que não é. Cada um sabe de que luz faz cruz, de que devaneio faz sentimento, de que santeria interior faz nau insensata, de que atitudes impróprias congela momentos, visões, prismas. Escrever é colocar dúvida em nós mesmos, a partir de olhares novos sobre frinchas revisitadas. UM é isso: um romance sempre no começo de uma relação que é posterior e anterior ao seu tempo estagnado, mas que viça pela palavra, se alonga, debulha, questiona, avalia e até trinca intenções. Há entrelinhas no ler… Que milagre é amar e escapar ileso? Escrever é lembrar, lembrar é escrever/ascender (e acender velas na solidão de uma alma em conflito). Depois que um corpo conhece outro corpo, fugir é mergulhar nele, mesmo que seja num palavrear confeitos, contrastes e ramificações do verbo sentir. E pensar é sentir com a alma. A carne é fraca, meus irmãos, o Romance UM foge do cepo da consciência, para cair no labirinto das confrontações. Um romance e tanto. E atual, moderno, nesses tempos em que uma igreja decrépita mostra as vísceras, em que a nódoa da historia nela depositada é remorso, e em que os que passam pelo genuflexório têm que rezar defeitos, lamúrias e resignações de fugas ainda não depuradas. Há um Deus? Periga ver. A correnteza da narrativa é o contra-fluxo do medo de amar até a página tal, o lado b do que se passou. Há coisas no ar. UM é apenas o começo do zero ao infinito. Tudo pode ser, como também não. Tudo pode ter acontecido, como pode ser um delírio bem orquestrado entre o que houve e o que se coube na relação até o limite do provável. A mão que oferece a maçã, oferece o delírio do corpo, da carne, do afeto trocado. Amou tem que rezar? A cartilha do amor é o corpo do êxtase levado ao destempero. Amar e sofrer. A corrupção do corpo. A delação da mente. Turvamos o historial para sentirmos a transparência de nós mesmos? Mia Couto dizia que a melhor maneira de mentir é ficar calado. E narrar o questionável? Si, sem o prazer não podemos parecer humanos. E o humano em nós desmonta o falso-sagrado em nós. Escrevemos para medir o destino, ou o amor é um erro? Geraldo Lima é professor de literatura, e conhece do oficio de romancear. Tem outras obras, alguns prêmios, retrata as relações humanas levadas ao extremo, entre o zelo, entre a mancha; do achado entre o perdido, das neuras e dos perigos letrais das relações amorosas, feito um discurso da posse de, da libertação de, dos atropelos de. Amar se aprende amando, diria o poeta. Há muita poesia no Romance UM de Geraldo Lima. Ler a obra é desnudá-lo. Ficamos cegos de tanto sentir, ou ler é tirar as tintas e panos do que ele conta, para sentirmos na pele que o livro vai além da experiência mística que inventa de contar? Que hamster é o ser humano para o suplicio do conviver entre desiguais? Primatas querendo ser divinizados experimentam os horrores das contundências. O Tibete talvez seja descobrir o humano em nós, depois que passamos tanto tempo no piloto automático da vida infame. E aí entra o amor na sua mais pura devoção, mesmo que paralelo ao medo do fotógrafo que retrata em nós a entrega despudorada, o inominável da submissão à carne, a tarja preta e o código de barras feito sermos todos nós ainda e assim, por isso mesmo o Número UM, introspectivo ou não, daquilo que sabemos de nós, entre o defensor e o algoz, a consciência e a circunstancia de. O escritor é o que, com uma lanterna, procura o número que somos, que parecemos, que multiplicamos em silêncios, palavras, moinhos de ventos, filtrações e sagradas escrituras. Sagradas?

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Silas Correa Leite – Poeta, Ficcionista, Resenhista Autor de CAMPO DE TRIGO COM CORVOS, Contos, Editora Design E-mail: poesilas@terra.com.br Blogue: http://www.portas-lapsos.zip.net Escritor Geraldo Lima

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Machado de Assis, Um Século Depois da Morte

Maio 29, 2010

A Importância de Machado de Assis Um Século depois de Sua Morte

Machado de Assis é o melhor escritor brasileiro de todos os tempos. A qualidade literária, a lucidez fora de série e o talento foram confirmados com o passar dos anos. Ler Machado de Assis é ter orgulho de ser brasileiro. De origem humilde, paulatinamente foi criando o seu magnífico mundo letral espetacular, fundou a Academia de Letras, marcou a arte lítero-cultural brasileiríssima com a sua essência de vida e também com o próprio registro magistral de sua época, de seu tempo, incluindo as agruras sócio-culturais do período. Escrevia como quem punha a alma do Brasil para madurar, dando testemunho de si nos despojos, registrando com sapiência em tantos livros importantes o seu valor, a sua cultura, fazendo com que, cem anos depois, ainda o estejamos estudando, tenhamos orgulho dele, pois nunca mais haverá outro como Machado de Assis, se assim podemos dizer, o Número Um. No Brasil é lido entusiasticamente como nunca, seus textos caem em provas e vestibulares oficiais de renome, jovens universitários de gabarito descobrem e estudam a sua maestria com as palavras, a construção dos quadros narrativos, o estilo todo peculiar e inconfundível. Fora do Brasil é tido como um gênio, a altura dos grandes nomes da literatura mundial, até mesmo muitas vezes sendo cobrado porque não teria sido indicado para o Prêmio Nobel de Literatura. Romances que passam a limpo as mudanças que vivia o Brasil; tons irônicos, enfoques humanitários, sempre recuperando situações nodais, moldando palavras e criticando os contrastes sociais de sua época e outras, império, escravatura, sociedade. Documentou, historiou, decodificou o meio hipócrita e mostrou toda a sua verve e o depuro no oficio do qual era mestre. Técnica narrativa cativadora, surpreendente linguagem e abstração portentosa que fundava ali, a graceza cultural emergente no seu mais alto estilo e qualidade, revelando a tez chão de sua carreira até hoje inquestionável. A importância de Machado de Assis cem anos depois de sua morte é a própria prova de que ele foi muito além de seu tempo, apesar das agruras do que a vida lhe impôs, e que talvez por isso mesmo também em seu caráter fizeram-no forte, valorando sua ética como registro de um povo, de um tempo, de um lugar. Sem ele, a literatura brasileira não seria a mesma. A sua importância até hoje é o testemunho do que ele foi pioneiro na qualidade histórica de sua área, insubstituível e o próprio tempo, como juiz soberano o valora sobremaneira, colocando-o no patamar dos melhores do mundo. Marco histórico, portanto, Machado de Assis tornou-se referencial para autores que o sucederam no ramo literário, criou linhagem qualitativa, fez escola, é comparado e está acima de todos, sendo citado com probidade e garbo, servindo como acervo de pesquisas históricas acadêmicas até, pertinente ao seu momento literal (costumes, figurinos, crendices, visões do império, da escravatura, da abolição, da república), além de dar sustentação para teses sociológicas e ainda ser considerado o fundador do melhor quilate da arte narrativa brasileira. Quando queremos citar um cidadão humilde que brilhantemente venceu na vida com arrojo, o primeiro nome lembrado é Machado de Assis. A sua importância é que seus livros vendem, sua técnica narrativa densa atrai, os seus personagens cativam (como Capitu e Bentinho, por exemplo) e ainda, com profundidade, permite múltiplos entendimentos, fazendo-no um personagem de si mesmo, um mito. portanto. ]

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 Autor: Silas Correa Leite Origem: Itararé-SP http://www.portas-lapsos.zip.net E-mail: poesilas@terra.com.br